Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A Laranjada Milagrosa

Não digo que ela fosse do tamanho do hospital: era maior do que ele pela leveza que infundia em tudo. Não cheirava a éter nem a qualquer coisa que lembrasse sala de curativos. Era uma franciscana. Gostava de ordem, de calma e costumava dizer que a calma era mais eficaz do que a agitação. Sabia resolver qualquer situação a contento, sem se perturbar ou perturbar ninguém. Uma santa. Nenhum problema lhe tirava a tranqüilidade. O ambiente, em que trabalhava, fazia-o fluir de forma sadia, sem conflitos. Sempre com sorriso nos lábios nos mostrava como estava bem com a vida. Tinha o dom da simpatia, a capacidade de fazer amigos: era querida por todos no andar que chefiava. Seu dilema: não culpar as circunstâncias pelo que lhe poderia incomodar. Dizia-me ela: "as pessoas culpam as circunstâncias pelo que realmente são. Na realidade, não têm confiança em si mesmas. É o mal da humanidade".

Quando dialogava com ela, não perdia a oportunidade para receber as suas sábias lições de vida. E, a todo instante, observava que ela dava testemunho do que pregava. O que, então, me era o selo de garantia de sua arte de ensinar. Uma vez me disse: "Como Deus é brincalhão! Cria coisas absurdas, sem seqüência lógica, sem assimetria, quando o homem cria, ao contrário, a lógica, a simetria e se perde em desarmonia, enquanto nosso Pai é simplesmente harmônico nas suas conexões". Disse-me essa frase que a retive por muito tempo, aguardando dela alguma explicação que, na ocasião, não ocorreu por que fora chamada pelo interfone para atender uma urgência administrativa.

Havia uma pequena copa no andar que lhe era o lugar preferido. Ali nos recebia com um copo de laranjada bem a gosto ou uma xícara de café. Este, porém, de sabor estranho. Vinha do refeitório já requentado. Mas a laranjada, ótima: perfeita na concentração, no adoçamento, na temperatura. Na linguagem bem apropriada: uma laranjada gostosa, no ponto certo. Eu não sabia por que, mas a pequena copa me parecia um lugar milagroso. Via pessoas entrarem ali xingando Deus e o mundo e saírem minutos após sorridentes, tranqüilizadas, como se nada tivesse acontecido.

Um milagre que vi se repetir muitas vezes e que me deixava curioso.

Um dos beneficiários da pequena e milagrosa copa foi um cirurgião, notório pelo temperamento agressivo. Quando ia operar, deixava todo mundo agitado, apavorado: até mesmo ( não é exagero) o hospital parecia estremecer com a presença dele.

Tive oportunidade, durante anos a fio, em o presenciar agindo da mesma forma, sem que surgisse, paradoxalmente, alguém para lhe pôr os limites ou fazer-lhe alguma advertência. Por ser uma pessoa naturalmente ruidosa e espaçosa, deram-lhe, em analogia, o apelido de Boeing, antiga aeronave que cruzava os céus de forma barulhenta, como se fosse dona do universo.

Ao saber do apelido, cuja intenção visava lhe cortar as asas, fizera ouvidos de pescador mas uma resposta lhe saiu da ponta da língua e, em voz bem alta, para que todos ouvissem : " Sou um Boeing porque carrego nas costas muita gente preguiçosa e incompetente". E continuou a fazer das suas.

Certa vez, uma auxiliar de enfermagem contou a Irmã : "Hoje o Boeing está insuportável. Brigou com todo mundo no centro cirúrgico e está vindo para cá. Se a Irmã me permitir, quero ficar longe dele". "Pode ir, minha filha, deixe-o comigo".

Quando ele apareceu muito irritado, batendo com os cotovelos nas paredes do andar (seu tique preferido), a franciscana o chamou para a pequena e milagrosa copa. Dali ele saiu dez minutinhos após inteiramente outro, renovado: sorridente, rindo em altas gargalhadas (sua marca predileta!) que ecoavam em pelo menos três andares hospitalares, se não mais. Uma transformação radical. Um verdadeiro milagre. Tão inexplicável, porém, me apareceu a ocorrência que me estimulou a curiosidade. Queria uma explicação a todo custo da Irmã. . Interroguei-a várias vezes para saber como havia conseguido obrar aquele milagre. Depois de muita insistência minha, ela me abriu o jogo, a contragosto: "Vou lhe fazer uma confissão mas não conte a ninguém, senão perdemos o meio de amansar a fera"( usou esta palavra de forma carinhosa). Hesitou ainda um pouco, mas convicta de que estava fazendo um bem, contou-me: "Quando o capeta me aparece por aqui, convido-o para ir até a copa. Dou a ele um copo de laranjada já preparada com dez gotinhas de neozine (forte tranqüilizante). Tenho feito isso há mais de três anos e vem dando certo". "Agora, me disse ela, não conte o meu segredo para ninguém. Confio no senhor".

Durante muito tempo, presenciei as inúmeras transformações do Boeing em uma criatura bem-humorada e risonha, ao entrar e sair da copinha a convite da Irmã, porém, confesso, desde aquele momento nunca mais quis pôr a boca nos copos de laranjada que a santa franciscana me oferecia.