Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A Transformação

Ela era analfabeta de pai e mãe. Uma dessas pessoas, porém, que ninguém ousaria deixá-la, com o passar do tempo, no rol do esquecimento. Fazia parte de nossa infância, de nossa adolescência e, por não dizer também, de nossa vida adulta. A presença dela enchia nossa casa de muita alegria. Vê-la era uma festa.

Era uma mulata gorda de braços roliços, cabeça chata sustentada por um pescoço curto. Uma figura típica de nosso interior. Exercia as funções de doméstica com natural desenvoltura. Tudo que fazia era bem feito. O arroz dela era o melhor do mundo. Não ficava atrás aquele feijão de caldo grosso, aquela carne refolgada com farinha d´água, até a água que nos trazia para matar a sede parecia ter algo especial: era sápida, e se não o era, em realidade, assim nos parecia. 

Ela cresceu conosco. Fez-se mulher. O respeito, porém, era a tônica com que se relacionava com todos. Tinha ela muita coisa que lhe dava um tom especial. Quando lhe perguntava o(s) nome(s), mesmo os de casa, respondia a nós num só fôlego:

“Sebastianaanasinhámariadaconceiçãoestáciomonguba!”.  Nunca o(s) dizia isoladamente. Soltava-o(s) todo(s) ao mesmo tempo, como se fosse(m) um só, como um nome simples, não o que realmente era, um composto, o que nos deixava um tanto quanto confuso. E quando lhe perguntávamos, por que nome tão extenso?  Ela, então, os desmembrava e explicava de forma bem simples: “Sebastiana é o nome de minha mãe; Ana, o de minha avó; Sinhá o apelido de minha bisavó, mãe da mamãe da mamãe; Maria da Conceição, o nome de minha outra bisavó, a mãe da mãe de meu pai; Estácio, o trisavô paterno; Monguba, o lugar onde nasci”. E assim caminhava com essa resposta na ponta da língua, ou melhor, da base à ponta da língua, como se lhe povoasse(m) toda boca, para deixar à disposição dos perguntadores.   

Um dia foi para o interior (‘estava com saudade dos familiares’) em visita aos parentes quando, semanas mais tarde, nos surpreende por uma carta, subscrita com todos aqueles nomes grudados, um colado ao outro, para nos dizer que, por motivos pessoais (nada contra nós), queria mudar de vida. E nos declarou: “Ia servir a Cristo. Era a vocação dela: a real e a única, que acabara de descobrir”.

Meses mais tarde ela nos surge, vestida a caráter, com gola a subir pelo pescoço até onde não podia mais, toda de branco, com a mesma alegria de sempre, a assumir a figura típica de uma religiosa. E contou-nos a história dela, sem entrar em muitos detalhes. “Ao assistir a um culto religioso, sentiu que Deus a chamara para O seguir”. “Como soube que Deus a chamou?” Foi a pergunta que eu, por curiosidade  a fiz de imediato.  “Usou a voz do pastor para me fazer o convite”. A princípio, confessou-me, fiquei em dúvida com o que me aconteceu. ‘Pra mim, uma surpresa’. ‘Achei esquisito aquilo’.  Semanas após, no entanto, ao retornar ao culto, nos disse, a “coisa” se repetiu, só que a voz que ouvia se fez mais alta e lhe tocou no mais profundo do coração. A partir daquele momento, não teve mais dúvida. Era Deus que a estava chamando: a voz não era a do pastor. Tinha muita energia. Uma energia que não podia ser humana.  E contou ao pastor o que lhe acontecera e, independente dele, tomou a decisão de ser religiosa.  Em poucos momentos, após aquela declaração, bem em nossa frente, nos deu testemunho da plena convicção que lhe movia a alma. Não tive dúvida: nossa Sebastiana... transformou-se numa outra pessoa. Trazia consigo nas mãos um livro de capa escura. Abriu-o respeitosamente e dele nos leu algumas histórias sagradas. Tornara-se um soldado do Exército da Salvação. Enquanto o lia, o seu rosto ficou visivelmente envolvido por uma luz suave. Parecia que ela estava em êxtase. Estranho fenômeno. Meus olhos, porém, bem materiais, estavam fixos naquelas mãos que folheavam o livro, aquelas que as conhecia em outra dimensão: as que faziam com muita habilidade o arroz bem solto, o feijão de caldo bem grosso, a farofa muito gostosa, inigualáveis, só que naquela ocasião, bem diferentes, nos traziam o melhor dos alimentos, o que ela encontrara e que queria repartir conosco: a palavra de Deus.

Quando ela terminou a leitura com tanta devoção, fiz uma pausa para meditação e, instintivamente, como que por movido por um impulso estranho, perguntei a ela, de chofre, o(s) nome(s), que me respondeu de um fôlego: “Sebastianaanasinhádaconceiçãoestáciomonguba!”

Na verdade, queria me certificar o que ainda existia daquela criatura que me era tão conhecida. E ela, sem negar as suas raízes, sem ter trocado de nome, ocorrência tão comum nas ordens religiosas, não só me respondeu como passou a nos explicar cada um deles, como fazia de praxe, - o que me fez transportar (‘egoisticamente’) ao passado bem remoto, levado por uma força misteriosa, a me sentar em uma mesa para saborear o arroz, o feijão, a farofa que me foram preparados, há muito, por aquela criatura tão santa.