Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A farpa pela harpa

Quando meus filhos eram adolescentes e lutavam, cada qual a sua maneira, por seus respectivos espaços, viviam em constantes discussões. Eram raros os momentos em que eu os encontrava unidos numa perfeita compreensão, a curtir um a presença do outro. Tudo lhes era motivo de discórdia, até uma simples ponta de lápis. Cada qual queria maior espaço para si e, o que era pior, sabia fazer o papel de vítima para o conseguir. Ninguém se sentia culpado por nada: - as suas constantes querelas me eram extremamente aborrecidas.

Dei-me conta de que tal atitude era, sem tirar nem pôr, a repetição do que acontecia com os filhos de meus amigos pertencentes ao mesmo grupo etário: na realidade, nada inédito, uma simples mudança de endereço.    

Não é à-toa que os adolescentes são chamados comumente de “aborrescentes”. Na ânsia de espaço cada vez maior, um invade o do outro sem dó nem piedade, como a ignorar que a liberdade de um começa quando a do outro termina.  

Eu lhes dizia sempre: dois só discutem, quando ambos querem discutir.

Aconselhava-os o exercício da tolerância, mas quando notava que, na liberdade de serem tolos, ultrapassavam os limites do suportável, ameaçava-os com puxões de orelha ou restrição de passeios. Entravam então em recesso, mas por pouco tempo.  

Quando saíamos de carro, a disputa era em torno de quem iria sentar no banco da frente, situação que eu resolvia por recurso ao rodízio. Na hora de contar piadas, todos queriam ser o primeiro, impasse dirimido por meio de sorteio.            

Meu empenho era de que os dois compreendessem que existe sempre a solução para o problema, qualquer que este seja.

E pontuava-lhes: o bom relacionamento humano é  produto de inteligência e sensibilidade. Portanto, nenhum deixasse as orelhas crescerem demasiadamente.  

Um fato novo surgiu para piorar a situação, com a vinda de um sobrinho adolescente para minha casa, a meu convite, para estudar no mesmo colégio. O relacionamento entre os três foi prontamente por água abaixo, pela boca de lobo adentro. Os motivos de discórdia continuavam a ser as mesmas futilidades. A caminho do colégio, punham à prova a paciência de qualquer cristão. Os capetas se transformavam em capetíssimos. Trocavam farpas agudas, um a  querer empalar o outro.            

Minha mulher se cansou tanto de lhes chamar a atenção que um dia me disse : “Por favor, passe a levá-los ao colégio. Faça-o em consideração a mim. Afinal, um sobrinho seu faz parte da gangue. É melhor mesmo você os levar”.

Nada menos de dezesseis quilômetros separavam  o colégio de minha casa. Um longo caminho que exigia muita atenção ao trânsito. Mas os aborrescentes estavam de prontidão contra ela. Ameacei, em represália, deixá-los no meio do caminho para continuarem a pé até ao colégio.

A ameaça trouxe uma trégua temporária. Ela me estimulou a tentar outro meio para resolver aquela situação aborrecida, de uma vez por toda. Encontrei-a e deu certo. A solução não se encontrava na jurisprudência. Atinei com ela de forma acidental: acertei na moca azul!

Numa visita que fiz a um seminário diocesano, para atender o bispo que se encontrava enfermo, vi na capela um padre a puxar o terço e centenas de seminaristas adolescentes a responderem às orações em uníssono, num comportamento coeso. Uma façanha que cuidei de imitar prontamente.

Comprei três terços de contas grossas, fáceis para o debulhar, e ao chegar à casa, à noite, chamei os três para uma sabatina religiosa. Sabiam tudo sobre terço. Responderam-me, afiadíssimos, às minhas perguntas. Para não deixar nenhuma dúvida pendente, perguntei a eles por fim : “Quantas Aves-Maria tem um terço?” “Cinqüenta”, responderam-me a uma só voz.

No dia seguinte, depois de passar a turma em revista - - desde se os dentes estavam devidamente escovados a se haviam esquecido algum apetrecho escolar - - mandei-os entrar no carro. Mal tínhamos percorrido alguns quilômetros, começou a discussão.  Sem perda de tempo, fiz a distribuição dos terços e dei a cada um, de forma distinta, a responsabilidade pela Ave-Maria, pela Santa Maria e pelo Glória Pai, que todos sabiam de cor, com a advertência de que rezassem  em voz alta. Houve resmungos mas não lhes fiz nenhuma concessão.

O terço debulhado inteiro ocupou o tempo exato dos dezesseis famigerados quilômetros de percurso.

No passar dos dias, percebi, entretanto, que os aborrescentes tinham desenvolvido tal habilidade em recitarem o terço que o terminava bem antes de chegarmos à escola, o que lhes dava azo para reiniciarem as fúteis e célebres discussões. Pareceu-me, inclusive, que estavam orgulhosos do feito, pelo que resolvi lhes fazer uma pergunta:  “Vocês sabem o que é um rosário?” Dessa vez ninguém soube responder. Ficaram a repetir: “Rosário? Rosário??”  “Já que não sabem, vou lhes dizer : um rosário são três terços e a seguir os interroguei : “Quantas Aves-Maria tem um rosário?”Se calados estavam, mais calados ficaram. Para lhes enriquecer a instrução religiosa, acrescentei: “Cento e cinqüenta Aves-maria!” E repeti, alto e em bom som : “cento e cinqüenta Aves-Maria!”

A partir daquele dia, eu não disse mais nada nem sobre terços nem sobre rosário. Mas notei que os terços estavam sendo debulhados sem nenhuma pressa, no ritmo adequado para preencher o tempo de percurso entre a casa e o colégio e, inclusive, com certo ar de devoção. O clima era outro. Enquanto isso, o carro parecia levitar numa agradável viagem e os meus adolescentes, não mais aborrescentes, como que tocados por uma graça especial, me pareciam três anjinhos compenetrados.

A farpa fora trocada pela harpa. Aleluia, aleluia-a-a!!