Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Agradecimentos

A medicina floresce como expressão de um ato de amor. O médico, ao exercê-la, nem sempre está consciente de que está conjugando o verbo amar. Somente o reconhecimento, muitas vezes inesperado e expresso de forma inusitada por pacientes que assistiu, é que lhe abre os olhos para esta realidade. Para exemplificar a ocorrência e ilustrar a comunicação, vou lembrar alguns casos que aconteceram comigo. Um desses é com um poeta que se me apresentou com intensa cólica renal. Ele fez da dor que o molestou um poema, o qual me dedicou, quando o publicou em um de seus livros, cuja obra foi apreciada e comentada por Carlos Drummond de Andrade, Alceu Amoroso Lima, Cassiano Ricardo, Jean-Claude Elias. Trata-se de Gilberto Mendonça Teles, considerado um dos maiores poetas nacionais.

Durante o tempo que lhe dei assistência, conversamos muito. Respondi-lhe as perguntas curiosas e expliquei-lhe as sutilezas que existem por trás de uma cólica renal: - a expressão de muitos problemas existenciais.

Ele me ouvia atentamente. Por fim, perguntou-me: "Por que esta dor é tão intensa, tão insuportável, que não nos permite um lugar para nos acomodar?" Respondi a ele resumidamente: - os rins fabricam urina; trabalham com líquido. Qualquer substância sólida que se forme nas vias urinárias, ao passar por estas, para ser eliminada, desperta uma dor muito intensa, em cólica, mais forte do que a cólica do parto. E ele continuou, agora mais curioso: "Por que mais forte do que a cólica do parto?" –"Esta é fisiológica. A natureza prepara os caminhos durante meses para o nascimento do feto. As vias urinárias não têm esta oportunidade". Eis o poema de Gilberto Mendonça Teles para ser apreciado:

 

Angular

Ao Dr Walter Pinheiro Nogueira

 

Há quem ajunta pedras no meio do caminho

quem atira pedra nos telhados de vidro

quem se arma de paus e de pedras

quem chega com quatro pedras na mão

quem se transforma em pedra de escândalo

quem gosta de pôr uma pedra por cima

e quem nunca deixa pedra sobre pedra.

 

Eu, não: sou calculista,

de cal e pedra.

Cultivo pedras nos rins e na língua.

E sei que pedra que rola não cria limo.

 

Às vezes, tomo chá de quebra-pedra;

outras, saboreio uma sopa de pedras.

nos momentos de crise, descanso a cabeça

numa pedra filosofal.

 

Numa pedra de toque( ou de amolar)

fundei pacientemente o silêncio

e aprendi a brunir as sete pontas

do dia D da minha dor,

 

Maior,

Bem maior - me garantem – que a dor do parto.

Outro caso, coincidentemente, com outro poeta, José Paulo Paes, que o assisti há anos, devido à enfermidade hipertensiva, ao oferecer-me, em analogia poética, um de seus livros :"Para o Walter, esperando que minha expressão literária o interesse tanto como minha pressão arterial".

Poderia citar outros casos, nos quais a relação médico-paciente gera ocorrências imprevisíveis mas geralmente bastante gratificantes para o profissional da saúde, tais quais as que aconteceram comigo.

"E,agora, doutor?"

 

Autoria: Walter Nogueira