Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Baitôla

Durante a ditadura militar, (segundo as más línguas, apoiada pelo clero: - ‘ao lado de um político, um sacerdote’), quando as relações conflituosas do Estado brasileiro com vários setores da sociedade ocasionaram a fuga de muitos patrícios nossos para outros paises, enquanto os opositores do regime que aqui ficaram sofreram torturas e prisões, sendo não poucos levados à morte, encontrei um desses exilados políticos em Londres, durante o Congresso Mundial de Cardiologia nos anos setenta.  

Apesar de não o ter conhecido pessoalmente antes, chamou-me atenção o seu biótipo de imediato: a imagem peculiar ao cearense interiorano. A forma da cabeça, o comprimento do pescoço, a estatura, a cor da pele - eram inconfundíveis, embora lhe faltassem os lábios de mel de Iracema, inventados pelo romancista José de Alencar. Nada tinha do Jeca de Monteiro Lobato nem do forte e desengonçado sertanejo de Euclides da Cunha. Tampouco serviria para as caricaturas preconceituosas dos cartunistas. Nele havia elegância, sobriedade e distinção. Era um tanto quanto franzino de corpo. Um terno azul vestia-o à inglesa de forma refinada e adequada. Notava-se que se tratava de um homem de grande personalidade.

Devidos as suas idéias avançadas para época e a fim de não ser tratado como subversivo esse meu patrício, que estava habituado à liberdade de expressão, se exilou com a família em Düsseldorf, uma pequena cidade da Alemanha.  

“Foi a melhor coisa que fizera”, contou-me depois. Através do noticiário do jornal francês Le Monde, vinha acompanhando as violações constantes dos direitos humanos praticadas pelas autoridades militares do Brasil, que abusavam do poder conquistado à força.

Ele sabia de coisas que eu próprio, vindo do Brasil, ignorava. As formas de perseguição política, as torturas a que eram submetidos os presos, o desaparecimento de muitos deles, a perseguição a estudantes, jornalistas, professores universitários e artistas de nomeada, sem respeito pela vida e dignidade humanas, atitudes que expressavam sentimentos de ódio às reivindicações sociais, conflitos resultantes da divergência de idéias, valores e filosofia de vida. Para ele, uma simples época de mudanças sociais que não justificariam tais atitudes, quando existiriam outros meios para os superar sem o recurso de tanta brutalidade. Segundo me falou, o clero, à semelhança do que já ocorrera com a Grã-Bretanha, em circunstâncias semelhantes, poderia acomodar essas divergências sociais, de forma harmônica, o que já deveria estar fazendo, apenas, de forma sutil para evitar o risco de ser hostilizado e considerado também como subversivo. E concluiu: os poderosos não desculpam as divergências de seus antagonistas. Ele fôra um felizardo por ter podido fugir a tempo.

Como detetive, acompanhei o meu patrício cearense a vários dos lugares freqüentados por ele. Antes, porém, de lhe falar diretamente, quis submetê-lo ao teste da palavra.

Há um adjetivo que serve para identificar prontamente um cearense, esteja ele onde estiver. O único, aliás, que, como se fosse uma senha maçônica, serve para arrancá-lo de seu buraco de tatu. É tão autóctone esse adjetivo que passou a dar nome a um bloco carnavalesco de Fortaleza. Basta ouvi-lo pronunciado para um cearense se pôr imediatamente em alerta em outro Estado ou fora do Brasil.

Trata-se de um termo chulo que significa o mesmo que veado ou homossexual masculino, o pederasta passivo: baitôla. Chamar um cearense de baitôla é um Deus nos acuda, motivo de briga séria. Só usei essa palavra, naquela ocasião, para identificar um coestaduano numa multidão de pessoas vindas de todas as partes do mundo, de caras as mais diversas, tendo em comum tão-só a circunstância de serem todas profissionais da área de saúde. A ocasião fora do comum dava-me o privilégio de poder usar a incômoda palavra e não hesitei.

Olhando para as costas do coestaduano, sentado três cadeiras a minha frente, no auditório “Queen Elizabeth”, e aproveitando uma pausa mais longa do conferencista do dia, gritei: “baitola!” Ao ouvir a palavra, o interpelado, erguendo a cabeça e voltando-a para todos os lados, feito uma serpente naja ou periscópio de submarino, tentou localizar o autor do grito. E partir daquele momento não mais ficou quieto na sua cadeira. Vi que estava visivelmente assustado. Eu assistia de camarote ao espetáculo de sua inquietação, sem a entender, porém.

A conferência retomou o seu curso e, instantes depois, estava terminada. Quando todos começaram a levantar-se, repeti em voz alta: “Bait...”. O cearense reagiu, estremecendo e passando a mão pelo cabelo, mais preocupado ainda que da vez anterior. De narinas frementes, deixou o lugar onde estava e foi sentar-se numa cadeira distante. Quanto a mim, sentei-me ao lado dele e pude observar de perto como estava angustiado, olhando inseguro, cheio de desconfiança, a sua volta. Fingindo distração, peguei o bloco de anotações na minha pasta de congressista e escrevi em letra de forma, enquanto ele me observava: “Bait...”.  

Em revide, ele pegou seu próprio bloco e rabiscou:”Bait... é você”.

Meu coestaduano era um médico importante, dono de um hospital numa grande cidade do Ceará. Desde que se exilara, era a primeira vez que saia da toca. Embora estivesse longe do Brasil, temia ser molestado por agentes da ditadura militar. Mas as saudades da pátria haviam sido tão fortes que o fizeram ir até ao congresso, na Inglaterra, para ver se encontrava algum conhecido. A sua história me comoveu. A ponto de convencer-me a desistir de visitar a Espanha, depois do congresso, e ir passar uma semana com ele e sua família, em Düsseldorf, com direito guiar o seu carro pelas auto-pistas germânicas e ir dar um passeio pela Holanda - - dois cearenses "não-baitôlas" - - unidos paradoxalmente  por essa palavra tão incomodativa em nossa própria terra de origem.