Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Barbosinha e Martinha

(Não sou cartunista nem chargista nem um Walt Disney que dão vida a figuras inanimadas, extraídas do seio da família, das florestas, do mundo da política etc., e com elas dão lição de vida à humanidade e nos deixam fascinados com o talento de suas criações. Sou simplesmente um mortal que espontaneamente, no seio de minha família, criei duas figuras à semelhança desses artistas, cada uma das quais com suas características peculiares, personalíssimas, inconfundíveis e incomparáveis com quaisquer outras : originais. Povoavam o interior de meus filhos, e lhes serviam de esconderijo ou proteção, fumaças que não nos permitiam ver quem é quem na responsabilidade das traquinagens e do desentendimento entre eles.

As figuras, então criadas por mim, designei-as Martinha(o anjo mau) e Barbosinha( o anjo bom) cujo alimento era simplesmente a luta de espaço que cada um queria mais para si. Observei, depois, que essas figuras passaram de minha família para outras famílias, e invadiram até mesma a instituição em que trabalhava. Com o correr do tempo, notei a dinamicidade e a pluralidade dessas figuras. Para surpresa minha, encontrei-as em todo ser humano, sem barreiras, desde a infância, à adolescência, à velhice, em todo ciclo existencial. Tornaram-se-me símbolos, e estimulado por sua linguagem refinada, passei a conhecer melhor as intenções certas ou tortas do homem na sociedade ou, quando muito, até mesmo surpreendido por elas, de forma um tanto quanto incauta, como marinheiro de primeira viagem, enjoado pelo movimento das ondas marítimas. É que é difícil conhecer o outro, como o é o autoconhecimento.

Confesso que essas figuras forneceram-me o texto que exporei à apreciação de quem estiver disposto a lê-lo, mas qualquer semelhança com pessoa viva ou morta, é mera coincidência: pertencem ao mundo da ficção).

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Quando meus filhos eram pequenos, tive a oportunidade de criar duas figuras que habitavam o interior de cada um. Manifestavam-se de forma distinta, em ocasiões distintas. Ambas neutras. Assexuadas. Anjos, o bom e o mau. Símbolos, apenas. Denominei-as Barbosinha e Martinha. Martinha era arisca. De temperamento muito forte. Agressiva. Pronta para a má-criação. Barbosinha, o oposto. Cordato. Manso. Tolerante. Dessas pessoas que agente gostaria de ter sempre ao lado.

Verifiquei que as figuras criadas por mim, com o tempo, não eram inerentes a meus filhos. Por eles, tive os primeiros contactos com elas. Habitavam, sim, o ser humano. Eram dependentes das circunstâncias e do meio.

Na família, elas tinham características peculiares para se manifestarem. Nem sempre surgiam no mesmo percentual, na mesma abrangência. Martinha chegava, não raro, à cifra dos 100% em sua revelação. Neste limite, ninguém a suportava. Era criança difícil de se lidar. Já o Barbosinha alcançava os 100% com naturalidade. Era o exemplo.

De vez em quando, eu era chamado por um dos meus filhos para servir de paziguador de uma discussão entre eles. Eu os perguntava imediatamente: "Quem deu uma de Martinha?" Esta figura era o alvo. O ponto-chave. Sem resposta, a identificação da personagem me era impossível. E, o pior acontecia, quando ambas as figuras, Marinha e Barbosinha, estavam simultaneamente encarnadas em um só. Eram ambos. Agressividade e mansidão. Amor e ódio. Choro e riso. Autêntico mimetismo humano. Mas ao perguntar: "Quem, o Barbosinha?" A resposta era imediata; as duas bocas diziam simultaneamente: "Eu!".

A experiência me tem mostrado, no convívio com elas, que a criança é 100% Martinha. Instintiva. Egoísta. No adolescente, Martinha e Barbosinha se combinam em diferentes percentuais. O adolescente é ambivalente. Nele predomina a Martinha, com a qual desafia a sociedade. O adulto faz o jogo com as duas personagens. Ora Martinha, ora Barbosinha ou ambas. Cristo ou Calígula. Perguntando uma vez a minha nora como era o pai dela que me parecia tão acolhedor, ela, antes de me responder, interpelou-me: "O senhor quer saber se ele é Barbosinha ou Martinha?" "Martinha!" respondeu-me de chofre.

No jogo dos interesses, o Barbosinha tem pano para todas as mangas. É´ distinto, educado, de boas maneiras. Vi muito bem representado por um dos meus conhecidos da redondeza, bem avançado na idade, que socialmente chamavam os pais dele, com muito carinho, de "paizinho" e "maezinha", quando lhes deixava faltar o amor filial e roupa adequada para os vestir. Outro que fazia bem feito as coisas bem-feitas (Barbosinha) como as fazia as mal-feitas(Martinha) e, para ilustrar, no que fomos enganados, uma pessoa de boas maneiras, distinta, uma dama. Vestia-se sobriamente. Trazia sempre consigo para oferecer um bolo bem embalado com laço de fita. Uma apresentação que demonstrava muito bom gosto. Todo aquele ritual nos queria dizer carinho e aconchego. Distribuía-o aos colegas. Quando não havia bolo, havia o chocolate. Vestia-se sobriamente. Parecia uma freira. Atitudes recatadas. E, mais, gostava de trazer consigo mensagens cheias de conselhos, sabedoria, espiritualidade. 100% Barbosinha. Criatura cativante. Com essa qualificação, conquistou todos, inclusive o "coração" de um colega casado, com o qual ainda vive e que nos deu a oportunidade de lhe ver a verdadeira personalidade: a Barbosinha era uma farsante Martinha! 100% Martinha!! Enganou Deus e o mundo.

Com o que me aconteceu, tenho tido muito cuidado com os símbolos. Reconheço que eles são uma fonte de sabedoria. São indispensáveis para a ciência, arte, filosofia, lei, religião, música, matemática mas quando aplicados à apreciação da personalidade humana, podem nos levar a enganos lamentáveis que só serão corrigidos quando tratados de forma realística e sem idolatria.