Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Eu e o fila

Eu acabara de construir uma casa muito grande, num dos bairros distantes de São Paulo, entre a cidade propriamente dita e o campo. Interessava-me conseguir um cão, ou mais de um, que me servisse de guarda. Tinha filhos pequenos e não me sentia seguro, mesmo tendo um caseiro morando naquela casa. O cão me daria essa presumida garantia.

Antes de comprar livro que me desse as características desses animais, procurei saber com pessoas amigas a experiência que tinha com eles. Queria saber qual o de maior potencial, na realidade, o melhor de todos. Uns me citaram o pastor alemão; outros me recomendaram o dinamarquês e, na seqüência, não ficaram esquecidos o dálmata, o dogue, o doberman até que, por fim, chegamos ao fila brasileiro. Não sei por que me senti atraído por esse animal. Talvez por ter nome bem nacional. Cheiro da terra. Coisa nossa. Não que despreze animais de outra origem. Mas, em vez de um animal estrangeiro, dou preferência ao que é nosso. Antes de adquiri-lo, queria saber tudo sobre ele. O seu peso. Tipo de pelo. Agressividade. Conduta de maneira geral. Para isso, consultei muita pessoa. Cada uma me dava pouca informação, de forma lacônica. "Um cão que come muito, mais do que um cavalo". "É animal valente; não se pode confiar nele". "Estranha todo mundo, até mesmo o dono". "É perigoso tê-lo em casa". - "Mas em matéria de segurança?" Era o que eu mais queria saber. A resposta era única: "é ótimo cão de guarda". Mas, apesar de todas as informações obtidas, ainda assim queria saber mais sobre o animal: - tornou-se-me quase uma obsessão ter o retrato falado do fila. Até que, quando menos esperava, me apareceu um médico do Rio para fazer curso de especialização conosco. Ele me falou a respeito do fila de forma muito original. Disse-me tudo que eu queria saber, tim por tim. Para que eu não tivesse nenhuma dúvida, acrescentou : "Prof., o senhor quer mesmo saber como é o fila?" "Sim!" "Pois então, vou dizer e, garanto, que o professor jamais vai esquecer". "Ótimo. É o que eu quero". Assim, ele me falou : "O senhor já viu cearense?" "Sim. Mas o que o cearense tem a ver com o cachorro?" "Muita coisa, professor. O senhor já vai perceber . Preste atenção. Os cearenses não têm cara larga, pescoço curto e boca cheia de dentes ?" "Sim". "Pois é igualzinho ao fila. A mesma carona, o mesmo pescoção, curto e grosso". E concluiu : -"no dia em que o professor encontrar o fila não vai esquecer. Garanto ao professor : o fila é cearense encarnado e esculpido. Como são idênticos!"

Durante aquela descrição, na frente de seus colegas que já estavam adiantados no curso, e que sabiam de minha origem, "da terra dos verdes mares bravios", todos tentaram, a todo custo, interrompê-lo. Mas embalde, a descrição fora feita e acabada.

Aguardei alguns instantes sem me reconhecer naquela fotografia. Perguntei-lhe por fim : "Você me acha parecido com o fila?" "Não. Por que?" "É que sou cearense".

Daquele momento em diante, não sei porquê, acabei com a obsessão: não quis saber mais como era o fila. Era o limite. De vez em quando porém, ao me olhar ao espelho, não sei por que tenho vontade de latir(!).