Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Médico Azarado

O universo médico é palco para ocorrência de muita coisa insólita que, muitas vezes, surpreende o profissional de forma um tanto quanto fora da rotina, o que lhe pode gerar constrangimento. Mas, em si, não deixa de ser uma engrenagem que funciona com duas peças, tal como o casamento. Em sua composição, somente duas figuras se inter-relacionam: a do médico, preparada para o exercício profissional; a do paciente, no qual faltam, não raro, os elementos educativos para assumir a postura em que se deva adequar. Une-os uma relação científica, não ingênua ou estereotipada, impregnada com os vícios das expectativas deste, - as suas fantasias no mundo da terapêutica, diagnóstico que, em vez de o ajudar, o torna mais doente. Uma relação especial que não permite a interferência de uma outra figura, como a do(a) acompanhante, o que ocorre com freqüência, quando  procura “assumir” a consulta do consultado,  sem lhe alcançar  expressão das queixas que o incomoda.  

Não é exagero afirmar que constantemente estamos a presenciar ou a ser parte dessas ocorrências. Confesso que uma destas nos pegou de surpresa, que merece a nossa consideração.

Estava eu a atender um paciente, que logo se mostrou bem longe das boas maneiras, cujo interesse era pôr defeito nos médicos e na Medicina. Dizia-me ele: “A Medicina não vale nada. Diz que a gente tem uma coisa, quando a gente tem outra ou quando não temos nada. Ai de quem caia nas mãos dela. Está convidado a entrar na cova antes de tempo”. Continuava: “Um amigo meu estava com a morte decretada por ela para três meses. Até hoje está vivo, bem vivo, com boa saúde. Disse que ele tinha câncer na próstata inoperável. Isso faz mais de cinco anos. Ora, ora! Pior do que a Medicina são os médicos. Só receitam remédios que fazem mal à gente. Uns têm a mania de só pedir exames sem saberem para que servem. Pedem só por pedirem. E concluiu : o resultado destes exames desnecessários é só para confirmarem que não se tem nada. Esses médicos,... o bom ainda não nasceu!”

A seguir, mostrou-me uma série de exames, muitas receitas, para me dizer: “Quero que você olhe isso ai. E vou logo a dizer, não quero que me aperte o braço com nenhum aparelhinho para me dizer que tenho pressão alta. Isso já eu sei!”

Ouvi-o pacientemente. Em verdade, passivamente. Não havia outra forma de agir.

Enquanto ele falava sem parar, analisei-lhe as maneiras para notar que se tratava de pessoa não satisfeita com a vida, acostumada a dizer o que queria dizer sem se importar com nada. “Um bicho do mato”.      

Sobre a escrivaninha “jogou” os exames e as receitas e disse-me: “Você é o quinto médico com quem me consulto neste mês e será o último. Se não acertar com o que tenho, vou procurar outros meios para me curar, o que já devia ter feito”.

Enquanto eu procurava ler os exames dele, consegui, num intervalo que me surgiu milagrosamente, abrir-lhe a boca para lhe extrair a história clínica. Ouvi-a do jeito que vinha. Atabalhoada.

Era ele descendente de família de hipertensos. Todos tinham ou tiveram “pressão alta”, para usar a palavra do leigo para a enfermidade, sem exceção. A natureza não lhe poupara ninguém da família. Com ela estavam   todos os irmãos, os pais, os avós maternos e paternos. Doença que na atualidade não tem cura: se beneficia com o tratamento medicamentoso, que a controla de forma eficaz.

Entanto, precisava examiná-lo. Pôr-lhe o “aparelhinho” para medir a pressão, o que consegui com muita resistência. E o resultado: pressão alta, agora mais alta em função de seu comportamento agitado. “E daí, que você acha que eu tenho?” A resposta se fez pronta: “Pressão Alta!” “E meus exames?” “Todos normais”. “O que fazer com isso?” “Tomar remédio: é a melhor coisa que pode fazer além de modificar alguns hábitos de vida que o prejudicam”. “Quais?” “Não comer comida salgada; evitar o fumo, bebida alcoólica, evitar o nervosismo e procurar praticar esporte, de preferência a caminhada : ter uma vida saudável”. “E remédio até quando vou tomar?”

“Para vida toda”. “Para vida toda?” “Sim, para vida toda”. “Por que para toda vida?” E, para não o temorizar, afirmei: “pressão alta que você tem é igualzinha à de seus familiares. Respondem muito bem ao tratamento.  “Não tem cura?” E repetiu: “Não tem cura??”.

De súbito, após o que falou, vejo a porta do consultório abrir e ele ganhar os corredores do hospital, a deixar, de forma bem alta e de bom tom, o eco de suas palavras: “Vote*, que médico azarado!”

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“Vote” é uma corruptela da palavra você, muito usada na Bahia.

“E, agora, doutor”?