Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O método infalível

Eu estava numa fila quilométrica de supermercado a enfrentar a algazarra de gente com os seus carrinhos abarrotados. A caixa registrava as compras, operação sempre demorada por mais habilidosa que fosse a operadora.

Naquele dia, véspera de feriado prolongado, além de fim de mês, a demora estava a ser particularmente grande e irritante: “era de dar nos nervos”. O supermercado, um pandemônio. Eu aguardava ansiosamente a minha vez para ser despachado. Queria a todo custo que ela chegasse logo: nessas situações, os minutos são horas que se arrastam.

Quando cheguei finalmente diante da operadora da caixa, após tanto tempo de espera, ela, ao me ver de branco, perguntou a mim: “O senhor é médico ou dentista?” Mas antes que eu pudesse responder a ela, adiantou-se e disse-me: “Pelo jeitão, deve ser médico”. “Sou médico, sim”. Fiquei atento ao registro das compras, sem mais conversa, para não ser surpreendido com “enganos” originários destas operações, que não são raros.

Enquanto ela ia a registrar as minhas compras, disse-me: “Posso lhe fazer uma pergunta?”

Eu cá com os meus botões, já acostumado com essas investidas incoerentes em lugares inadequados ao exercício profissional, o que na realidade consiste na exploração gratuita de consulta médica -, fiquei a aguardar o que dela veria. E sem mudar de endereço, se me surge o apregoado “saber uma opiniãozinha” sobre algumas dúvidas que se lhe atormentava o espírito. Enquanto falava, fiquei a pensar: “como a profissão médica é explorada! Consulta médica tem suas formalidades, que não podem ser feridas tais quais as que existem em qualquer outra profissão. Tem suas implicações, além do mais não é gratuita”.

Ela, com mais insistência, volta-me a perguntar, como se eu não a tivesse ouvido: “Posso lhe fazer uma pergunta?” Não respondi nem sim nem não, para dar basta àquela interrogação.  E ela, sem desistir, agora a se explicar: “Eu queria apenas uma orientação”, e se deteve a olhar-me nos olhos.

Para evitar mais a investida, perguntei: “O que deseja saber?” E dela ouvi uma longa história, quase do tamanho da fila que estava eu ainda a enfrentar. Disse-me ela: “minha família é numerosa, dez filhos, e não queria ser surpreendida por outro. A decisão era dela e do marido. Haviam tentado todos os métodos para evitar a gravidez, mas todos, segundo ela, falharam. Ao mostrar-me conhecimento de causa, foi-me a citar o nome de cada um – o da tabelinha, o da camisinha, o DIU, e vários outros. A meu ver, uma especialista no assunto. Para não a deixar inteiramente sem resposta, depois de tudo que me comunicou, recomendei a ela que procurasse um posto de saúde, juntamente com o marido. Lá, uma equipe treinada daria explicações adequadas ao casal e lhe esclareceria que, muitas vezes, não é o método que é falho ou está errado, mas sim quem não sabe interpretá-lo nem o usar como de forma adequada. Argumentou-me ela:“Já fomos a vários postos de saúde. Fizemos tudo quanto nos foi recomendado, mas sem resultado algum. O que eu acho, doutor, é que a medicina é muita falha nesse assunto. O que não queremos é fazer cirurgia para esterilizar a gente. E acrescentou: “É tudo “blábláblá... o que tenho ouvido; não acredito em mais nada. O método da tabelinha é muito falho. A camisinha, pior ainda, quando quer se romper, ninguém a segura”.  Após ouvir tanta coisa improcedente, respondi a ela: “Mas se a senhora está tão descrente da medicina e dos médicos, por que me faz perguntas ainda?” “Para saber se existe um método mais novo”. Sem perder o decoro, respondi a ela: “método novo não existe além do que a senhora me falou. Mas há um que é eficiente, não custa nada e seu resultado é  100%.” “Duvido, doutor, duvido. O senhor não está brincando?” “Não estou, não. É método tão antigo que estranho que a senhora não o tenha usado. Não se trata de nova camisinha nem de cirurgia...” E ela, a não se dar por vencida, me disse: “conheço todos os métodos, doutor. Só me faltava desconhecer esse tão antigo”. “Não me parece, disse-lhe,  que seu conhecimento seja tão amplo”. Assim a deixei curiosa. Um desafio.

Eu já tinha pagado as compras e com todas no carrinho fui a deixar o supermercado, quando ela, mais insistente, me chama atenção:  “Diga-me, doutor, qual é esse método que ainda não usei. Qual??” “Quer saber mesmo” “Sim.” Então procure entender o ditado: “boca fechada não entra mosca! É o melhor anticoncepcional que existe. Não conheço outro mais eficiente”. “Não entendi, doutor: não entendi o que o senhor quer dizer”. Parei e a olhei nos olhos, como havia feito comigo, e lhe disse para que não houvesse dúvida, a senhora substitua a palavra boca do ditado pela palavra pernas: para um bom entendedor meia palavra basta!”

Apressei-me, logo a seguir, a deixar o supermercado, ainda abarrotado de gente, enquanto a caixa curiosa, meio aturdida, começava a atender outro cliente.

Então, com os meus botões, pensei: “Garanto que se ela for atender outro profissional de branco não vai mais lhe perguntar se ele é médico ou dentista”.