Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Pintando o Sete

Existem vidas cheias de contradições impossíveis de entender, por mais que se queira entendê-las. Vidas com muitas facetas, cada uma delas autênticas na sua expressão. Uma vida assim era a de uma cliente que sofria de insuficiência renal grave, em fase terminal, no que a Medicina chama uremia.

Seus rins já não davam mais conta do recado e ela continuava viva graças a um programa de diálise, que o cumpria em três sessões semanais. E se sentia bem, com vida útil e capacidade para o trabalho. Em nenhum momento, deixou de participar das atividades sociais. Era uma mulher já quarentona, com um filho formado em engenharia pela USP, que dava a ela muito orgulho. É importante acentuar esse aspecto, para que ela não seja confundida com gente tola ou inexpressiva. Mas seja vista pela profunda espontaneidade conforme o andar do texto. Mulher que não se fez prisioneira dos deves e não deves e, simplesmnte, fez da boemia o espaço natural para sua liberdade.

Era culta e inteligente. Estava convicta de que tudo que fazia era correto. Foi uma das pessoas mais autênticas que conheci.Seus anos de estrada não tinham sido em vão. Discernimento era o que não lhe faltava para se firmar na convicção da justeza do seu modo de vida. Aparentemente, uma doidivanas. Andava pelas buates como "garota de programa", pintando o sete.

Não faltava os dias de dialise. Preferia fazê-la na parte da tarde, já que dormia a manhã toda. As noites eram suas. Seu comportamento, porém, na sala de diálise, não tinha nada de pudico. Para a pesagem obrigatória antes de cada sessão, despia-se completamente, muito à vontade. Não fazia nenhuma cerimônia com quem estivesse presente. Procurei disciplina-la no que fez ouvidos de mercador. O que chamava atenção nos seus desnudamentos era, toda vez, a mudança de cor dos pêlos pubianos.

Pintava-os ora de verde, ora de vermelho, ora de amarelo ou, não raro, verde/amarelo etc.. Pintava-os, como dizia, "ao gosto do freguês". Verde para o francês, vermelho para o japonês ... Eles eram o retrato de suas vivências noturnas.

Certa vez, no propósito de fazê-la mudar de comportamento, apesar de toda proibição a ela imposta, procurei falar-lhe de religião. Ela me pediu, no entanto, que não o fizesse. E me contou a sua história.

Era de uma família protestante, ortodoxa até a raiz do cabelo. O pai, o patriarca, havia tentado tudo para convertê-la, "dar um jeito nela", porém não conseguiu nenhum resultado, e para evitar novas investidas dele, a doidivanas fugiu de casa. "Derá no pé". Não suportava que lhe falassem de religião nem histórias de santos. Queria distância de igreja e não trocava a vida que levava por nada desse mundo. Deixassem-na em paz.: era só o que queria.

Eu a vendo presa a um programa de diálise, com as suas implicações, com os seus sofrimentos, esperava vê-la, no entanto, com novas idéias, aberta para outra realidade, entregue à oração, à espiritualidade. Mas nada disso nela encontrava, o que achava paradoxal como vivia : feliz, naturalmente feliz, com a noite, que lhe fazia bem. E confidenciou-me :"sabe, doutor, meu filho é engenheiro. Eu o tive aos dezeseis anos. Deixei meus pais para ir viver com um homem mais velho do que meu pai. Para minha família, foi o maior escândalo. Mas para mim, não: era o que eu queria. Quero viver como vivo. Não quero mudar em nada. Meu filho não me reprova. Respeita a minha forma de ser. E, de uma forma inusitada, me disse :"Meus pelos pubianos, pintados como eu os pinto, valem uma fortuna. Sou paga em dólar. Doutor, gosto do muito de dolar; gosto do que faço. Por favor, não me fale em religião senão desapareço daqui". E concluiu : "Não queira me catequisar, é perda de tempo. Sei o que faço e o que quero. Digo e repito, doutor, catequese é fruto de ansiedade. Se não existissem ninguém para ser catequisado, os catequistas morreriam de tédio. E eu sou feliz, muito feliz. Não troco a miha vida pela deles nem preciso viver rezando. Isso é rabugice. A verdadeira oração, doutor, é ser feliz. É a única que conheço. E me basta. Não queira me modificar, embora eu lhe agradeça a boa intenção. "

Quer fazer? Continuei assistindo-a por anos a fio, não mais lhe interferindo no comportamento, vendo-a sem máguas, azedumes ou queixas, cumprindo o programa de diálise, levando a vida que escolhera, de garota de programa, pintando o sete e os pêlos pubianos.