Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Presente de Grego

 Quando conheci o casal, chamou-me atenção a diferença de idades entre ambos. Nenhum era jovem. Ela, que deveria estar na casa dos 40, parecia ser 30 anos mais nova do que ele, que estava na casa dos setenta. Mas um nascera para o outro e a diferença de idade parecia não pesar. Ele, folgazão; ela muito reservada: segundo eu soube, era bem mais nova que o filho mais moço dele, o caçula. Ele era viúvo: sua primeira mulher morrera, quando preparava o café da manhã, em conseqüência da explosão de um botijão de gás. Uma morte trágica que quase o levou à loucura, se não tivesse ele encontrado em boa hora a  segunda companheira, a quem devia, como afirmava, a razão de viver.       

Moravam numa casinha pequena, dessas que se podem chamar “casa da vovó”, bem em frente da residência de minha irmã. Era uma casinha bem conservada, muito limpa, com um jardim sempre bem cuidado. Um corredor largo ladeava-a à esquerda, onde estava estacionado, como que embrulhado em lençol, um DKV impecavelmente polido. Dois cachorros pequineses faziam companhia ao casal. Eram os cães mais nervosos que jamais conheci. Punham-se a latir ao mínimo barulho, pulavam sobre as pessoas, rosnavam, pareciam estar com todos os diabos no couro. Tinham nomes esquisitos­ - - Bidu e Tusca - - e eram o xodó deles.

Certa vez fui chamado para atender o meu cliente folgazão, que andava com a pressão alta. Outra vez fui atender a sua mulher, que se queixava de cansaço, mas estava bem de saúde. Atribui-lhe as queixas ao excesso de trabalho de zelar sozinha pela casa e sugeri a ele que contratasse um menino para ajudá-la pelo menos a cuidar do jardim. E ele, pondo à mostra o que lhe ia ao íntimo, respondeu-me: “Não é bom conselho. Menino faz menino”. Embora pequena, a casa, para ser mantida naquela ordem impecável, devia dar um trabalhão. Minha cliente tinha móveis por todo o lado, apinhados de centenas de miniaturas: uma casa entupida de coisas como se costuma dizer.

Como as queixas dela continuassem, eu disse ao casal: “Isso acabaria se vocês contratassem uma faxineira, nem que fosse uma vez por semana”. E ela retrucou de imediato: ”Empregada, não; só dá aborrecimento. No começo, faz tudo direito, mas logo pega confiança e a partir daí começa o estrago. Coisas começam  aparecer quebradas ou desaparecer. Um inferno”.“Ai vocês trocam de empregada”. “Nem vale a pena. Trocar de empregada é trocar de defeito”. Confesso que não entendi a recusa  do casal. Não os estava aconselhando mas  receitando a forma como  atenuar os incômodos da queixosa.    

Daí por diante fiquei com a boca fechada e me contentei em ouvir as queixas dela, mesmo quando me dizia que estava caindo aos pedaços. Cada um deve conhecer o sapato que o aperta: questão de fórum íntimo, talvez! O exercício da profissão me exige ética. Não posso ir além da chinela.

Eles sabiam que eu estava com planos de casar e já tinham conhecido a minha noiva. Numa ocasião, quando menos eu esperava, ele veio a mim todo sorridente e sem que eu nada lhe tivesse pedido, disse-me: “Quando você for se casar, vou dar-lhe desde o Volkswagen até a televisão”. Achei cocada demais para um só baiano. Mas não havia como duvidar da palavra de um homem que parecia tão sério. Por que iria ele então prometer aquilo se eu não lhe tinha pedido coisa alguma? Achei a oferta tentadora : era, então, só aguardar, pois faltavam poucos meses para o casamento.

Continuei atendê-los, sempre que me chamavam, e ele reafirmava toda vez a sua promessa, que cá com os meus botões eu achava sem pé nem cabeça.

Uma semana depois de meu casamento, ele e a mulher apareceram, de embrulho na mão, para uma visita. Recebi-os carinhosamente e ficamos a conversar. Durante a conversa, nenhuma palavra foi dita a respeito do Volkswagen ou da televisão. Antes de irem, ele, muito falante, me passou o minúsculo embrulho “Fizemos questão de trazer pessoalmente o nosso presente de casamento. Espero de que goste”.

Peguei o embrulho, apalpei-o, enquanto a imaginação, que tudo fertiliza, ia me dizendo que poderia ser uma jóia preciosa ou outro objeto de muito valor.  Abri o pacote com muito cuidado, enquanto o coração, agitado, fazia das suas. E eis que para minha surpresa me aparece uma miniatura, não sei se de marfim ou plástico, de três macaquinhos, os três muito parecidos entre si, com uma única diferença: um tapava a boca com as mãos, enquanto os dois outros tapavam os ouvidos e os olhos. Aqueles feios e esquisitos macaquinhos eram a encarnação  dos presentes a mim prometidos. Estranho, não?

Dois dias mais tarde sou chamado para atendê-lo. Encontro-o de cama, com uma gripe muito forte. Examino-o detalhadamente. Pulmões limpos. Nada que inspirasse cuidados especiais. Receito-lhe três injeções para serem administradas  intramuscular uma diariamente. Elas o curaram prontamente, assim me informou, “como um milagre”, mas  ele me confessou :”Doutor, as suas injeções foram muito boas. Acabaram com a minha gripe mas posso lhe confessar uma coisa, posso?” “Sim” respondi a ele. E ele me disse : “ em toda minha vida, doutor, nunca havia tomado injeções tão doloridas, que quase me  faltou a coragem de tomar a última”.