Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Viva a diferença

 

Eu estava em New Jersey (USA), na década de oitenta, hospedado no apartamento de um colega. Naquela época, ele era diretor clínico de uma indústria farmacêutica multinacional. Falávamos de medicina.

Hoje, no Brasil, vejo-o com outra linguagem (“neurolinguística”) ao falar para o homem de negócio a forma como conseguir sucesso em seus empreendimentos.

Chamou-me atenção uma frase dele: “a diferença faz diferença”, ao notar nela o quanto significava.       

Quando estive no apartamento dele, fui surpreendido por um telefonema de São Paulo: minha sogra havia sido hospitalizada com infarto agudo do miocárdio, o que me fez retornar imediatamente ao Brasil.

Encontrei-a monitorada, conectada a tubos plásticos que lhe iriam permitir voltar para casa, em segurança, depois de alguns dias de internação. De imediato, notei que se encontrava deprimida - reação fácil de ser compreendida pela experiência inusitada que a pegou de surpresa, no calor de uma festa de aniversário de um dos netos.

Dias após em casa, observei que minha mãe, sua companheira de apartamento, entrou na mesma onda depressiva. As duas, octogenárias viúvas, moravam comigo havia anos. Uma era o eco da outra. O advento do fato novo afetou-as de forma patológica e juntou-as numa identificação doentia.

A depressão corria-lhes solta. O ambiente, em que se encontravam instaladas, respirava a apatia, a anergia.

 O silêncio entre ambas se alongava. Cada uma mergulhada em si mesma, quando habitualmente estava eu acostumado a vê-las envolvidas em seus diálogos particulares, entrecortados por sorrisos. Agora, pareciam-me que as suas bocas estavam  fechadas com esparadrapo. Se continuassem assim, tinha certeza de que algo lhes poderia acontecer.

A depressão para o idoso é a antevéspera da morte. As octogenárias precisavam reagir. Tentou-se de tudo, sem nenhum resultado.   Deitadas, caladas, olhar perdido no espaço pareciam duas múmias imóveis.

Eis senão quando, ao passar eu diante de uma loja de armarinhos que vendia fios de crochê e de tricô, percebi que a solução poderia estar ali. Consultei a vendedora a respeito de algum tipo de crochê (as duas eram crocheteiras) cheio de detalhe e de execução difícil - “receita complicada” - ´de nós em pingo d´água´, e que pudesse ser feito simultaneamente por duas pessoas.

 Depois de pensar e repensar, a vendedora me disse: “Tenho uma receita para colcha de cama de casal. É muito trabalhosa,feita com aplicações de peças individuais. Cada peça tem quinze por quinze de centímetros. Quando prontas, deverão ser unidas umas às outras. É preciso que tenham exatamente o mesmo tamanho. Caso contrário, os defeitos aparecerão. E acrescentou : “defeitos que, para quem faz crochê, são atestados de incompetência. É constrangedor!”Então, respondi, de pronto: “ótimo, é exatamente o de que preciso”.

 A vendedora, ainda mais, me advertiu: “Olhe, jamais vi uma colcha feita a quatro mãos!”  Em seguida me disse a quantidade de novelos necessários para confecção da colcha e  aconselhou-me que os adquirisse de cores diferentes, as mais alegres, as mais vivas.

Em pouco tempo, o material estava devidamente condicionado num volumoso pacote que, com dificuldade, o coloquei no carro.

Levei-o, ainda pela manhã,  imediatamente às duas deprimidas. Expliquei-lhes o que era - para a confecção de uma colcha, presente de casamento que havia prometido a um amigo. E disse-lhes: “Ele casaria dentro de um mês. E eu tinha em casa as melhores crocheteiras do mundo. Queria unir o útil ao agradável. Confiava no trabalho delas”. Ao deixá-las, falei alto : “Mãos na lenha!”.  Já bem de noite passei, como rotineiramente fazia, para vê-las. Notei que já tinham feito a escolha das cores, ao gosto de cada uma, e os novelos dispostos ao lado das respectivas poltronas. 

No dia seguinte, fui encontrá-las de agulhas nas mãos, ativamente a puxar e repuxar os fios de lã. Noutro dia, já havia uma pilha apreciável de aplicações.  E havia também resmungos de parte a parte: “Assim não dá, não dá mesmo!”. “Não me responsabilizo por nada!”. “Nem eu: onde já se viu fazer crochê assim?”

As bocas abriram-se; as línguas estavam soltas; o esparadrapo fora descolado. As conversações foram-se a intensificar com o correr dos dias. Voltaram à intensidade normal, a ponto de se distinguir de quem partiam.

As deprimidas a pouco e pouco estavam a dar adeus à depressão. E, por mais estranho que possa parecer, passaram a assumir uma atitude de competição. Principiou uma discussão bem típica das duas: “O seu ponto é muito pequeno”. “O seu é que é grande demais”. “A sua aplicação está maior do que a minha”. “Não, a sua é que é menor do que a minha”.

Punham-se a medir as aplicações, a justar umas às outras. Grande a diferença. E a discussão recomeçava: “Eu preferia fazer a colcha sozinha”. “Eu, também”.

 Cada uma punha defeito na outra. “Você é teimosa!” “E você, sabida demais!”

Os novelos iam sendo consumidos e a feitura das aplicações chagava ao fim. E eis os momentos críticos, decisivos, da união de todos eles para a composição da colcha: - o acerto das diferenças, o resultado do esforço, da frustração, da tentativa. O inesperado poderia acontecer. Nem queriam pensar. Nem poderia ser diferente: cada uma tinha seu jeito próprio de crochetar, como uma impressão digital. E eu sabia disso.

Mas a colcha pronta, no tempo certo, com toda a diferença de pontos, me foi entregue sem nenhum comentário.

Dessa vez, as duas octogenárias viúvas voltaram a unir-se, numa verdadeira cumplicidade e me disseram: “eis ai o seu presente. Fizemos o melhor que podemos”.

Olhei a colcha, que ainda a tenho. Olhei para ambas, as minhas crocheteiras: belas, sorridentes, lindas, luminosas, em que a diferença das aplicações que fazia a diferença, - que as separava - paradoxalmente as unira e deu a ambas o ânimo e o gosto de viver, “a golearem” à crochê  a depressão.