Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A Marcha para o Oeste

Portugueses e ingleses se estabeleceram próximos ao mar. Não podia ser diferente uma vez que a ligação com as metrópoles se fazia pelo Atlântico. Por isso, quando Antonil disse, no século 18,  que os portugueses eram como caranguejos, viviam arranhando a costa da colônia, o mesmo valia para os britânicos. Estes estavam amontoados nas colônias fundadas na América do Norte dedicavam-se à agricultura e ao comércio. Algumas eram estatais, outras de iniciativa privada.  Uma boa parte dos colonos era originária das perseguições políticas e religiosas na metrópole. Vieram para não voltar e trouxeram o que puderam. Até uma subversiva prensa chegou na América. Ela se consolidou como uma colónia de povoamento . Os ingleses americanos queriam os mesmos direitos que tinham em seus distritos de origem. Queriam representação no Parlamento e o direito de votar as leis como faziam na Inglaterra. Não atendidos partiram para o separatismo com a proclamação da república liberal. Ao longo do século 19 estiveram confinados no leste até 1860. Daí pra frente o governo estimulou um avanço para o Oeste, com o estabelecimento de uma Lei das Terras. Os desprovidos foram incentivados a avançar em direção ao interior e conquistaram o Far West.

Também na colônia portuguesa a independência não mudou a ocupação do espaço. Ao longo de todo o século 19 as cidades e atividades concentravam-se na faixa do Atlântico. Isto se prolongou ao longo do século seguinte. Vargas, durante a ditadura do Estado Novo, proporcionou expedições desbravadoras a que ele apelidou de Macha para o Oeste. Nada mudou . Contudo os partidos  políticos incluiriam em sua propaganda a necessidade de ocupação do interior. Uns temiam a perda de territórios para nações estrangeiras. Outros porque sabiam que isso fazia parte do imaginário popular. O PSD elegeu Juscelino, em 1955, que ressuscitou a velha ideia de José Bonifácio de transferir a capital do Rio de Janeiro para o centro oeste. Ela carrearia população , investimentos, e ocupação para o coração do Brasil. O Rio era considerado vulnerável a um ataque marítimo, como tantas vezes ocorrera no período colonial . A proposta de JK contaminou o pais e ele inaugurou a nova capital administrativa do Brasil em Brasília.

Washington não deu lugar a nenhuma nova capital erigida no oeste americano. A ocupação se deu com o desenvolvimento econômico e as estradas de ferro que conseguiam ligar o Atlântico ao Pacífico. Não passou pela cabeça de ninguém sério investir uma quantidade imensa de dinheiro em uma capital administrativa no Far West. A velha e boa Washington dava cabo disso e o país tinha outras prioridades. O Brasil seguiu outro caminho. Brasília se tornou a capital da Esperança. Maravilhosa arquitetura de reconhecimento mundial, e o assombro do mundo diante do desafio levado a frente à ferro e à fogo. A ousadia custou uma limpeza nos cofres públicos e uma inflação galopante. Valeu a pena ainda que o crescimento econômico só começou na década seguinte, em pleno período militar. Estes retomaram a tese que era preciso ocupar para não entregar e iniciaram a derrubada indiscriminada do cerrado, da floresta amazônica e entregar as terras públicas  a grandes fazendeiros . Os futuros gestores do agro negócio brasileiro.