Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A Volta do Zé Ninguém (2)

Em política cada um culpa cada um dos demais, nunca a si mesmo. É hora de parar de culpar o bode expiatório. O Zé Ninguém continua a solta, como constata Wilhelm Reich, procurando impor a sua mediocridade onde é possível, e anulando as ações que possam desenvolver a cidadania e o bem estar social. Nada disso lhe interessa, desde os tempos que Mocenigo, o Zé Ninguém que entregou Giovani Bruno para a morte na Inquisição, até tantos outros que monopolizam a política e a economia atuais. Espalha que liberdade é o direito de fazer o que quiser; diz que acordo deve ser vazio de princípio e é para não ser cumprido; empresa existe para roubar, extorquir, fraudar, liquidar com o concorrente; transforma rebelde contra a injustiça social em depredador de banco, correio, latas de lixo; a organização do trabalho deve respeitar chefes de sindicatos burocratas, vitalícios e corruptos; partidos políticos são balcão de negócios e defensores dos interesses de seus contribuintes de campanhas eleitorais, e por aí vai. 

 

Nas mais diversas atividades humanas o Zé Ninguém se infiltra e se recusa a deixar a sua couraça de mediocridade, ainda que, muitas vezes tenha consciência dela. Não paga a pena, dizia o Jeca Zé Ninguém Tatu. Somos uma sociedade que cultua o Macunaíma, o herói Zé Ninguém sem caráter. Por isso sua pregação é a difamação, a perseguição da liberdade de pensamento pioneiro, o amordaçamento e a mentira pessoal. É ele que ensina que uma luta honesta deve terminar com uma facada nas costas.  A liberdade civil não pode impedir a tolerância para com os “espertos”, corruptos, ladrões de toda ordem, estupradores, líderes de quadrilha, assaltantes de cofres públicos e privados. Ela não pode impedir que eles consigam suas fortunas através de ações de esperteza, bons assessores e advogados, e tribunais com incontáveis números de recursos e juízes venais. É uma violação do princípio do pleno direito de defesa, diz Zé Ninguém. Seu aprendizado se renova constantemente com novas contribuições de inúmeros zé ninguéns que desprezam a cidadania e espalham o esnobismo cultural. Está sempre acompanhado dos eternos sangue sugas, maçanetas, puxa sacos, interesseiros e oportunistas de toda ordem. Todos ajudam com novas ações a diversificar o arsenal da mediocridade, caiba onde couber. 

 

Graças a essa renovação Zé Ninguém é imortal como um vampiro e seus ensinamentos atemporais como o Contrato Social. Assim é preciso perpetuar o receber nunca dar, viver à espreita da oportunidade safada, pescar só para machucar o peixe, apertar o botão quando comandado, caluniar o que não gosta e, se possível, assassinar o caráter toda vez que este se manifeste. Ao invés de debater ideias, desconstrói o adversário. Divulga que cada vez a sociedade está mais competitiva e por isso todas as armas devem ser usadas para se atingir um objetivo, sejam éticas ou não. Para isso é preciso cortar árvores na floresta, devastar, sujar a água, praticar a usura, inflacionar os preços, e ser excêntrico. Zé Ninguém é o pistoleiro de aluguel para qualquer atividade, seja a de traficar influência até por a mão no esgoto social. É pau para toda obra.  Afinal, se pagar bem que mal tem, é o seu principal aforisma.

     

(REICH, W. O Assassinato de Cristo, Ed.M.Fontes)