Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Escute, Zé Ninguém

Finalmente o Zé Ninguém virou Zé Alguém. Cansado de ser tapeado pelo palavreado oco e dissonante dos que dirigem seu dia  a dia, o Zé Ninguém resolveu dar um basta a sua docilidade ovina e sair para a rua. Não para ver a banda passar, mas para se misturar com ela, e, mesmo sem saber tocar nenhum instrumentos, decorou o estribilho e cantou. Mesmo com as juntas duras, dançou como há muito tempo não dançava. Canto e dança de uma satisfação que há muito não sentia. Estava, não sabe há quanto tempo, confinado na sua carapaça sem poder se quer respirar. Cansou de se calar e conferir mais poder aos poderosos, ou escolher homens fracos, corruptos e maus para representá-lo no parlamento, assembleia ou câmara. Descobriu que não é tarde demais para parar de ser enganado.

Chega de ser um Zé Ninguém, é hora de ser um Zé Alguém. Essa história vem rolando desde os tempos da independência, quando um tirano iniciou o ciclo de poder central forte, acoplado a um parlamento fraco e sensível a qualquer barganha de qualquer espécie. Ser um homem comum, não é, necessariamente, ser um Zé Ninguém. Basta ter consciência que pode ter opinião própria, governar a própria vida, e escolher o mundo que quer viver. Quando o Zé Ninguém sabe a  força que tem e perde o medo de saber, se torna um Zé Alguém. Para de sentir orgulho dos que manipulam o poder e passa a sentir orgulho de si mesmo. Quanto mais entende sua importância social, mais acredita nela, e quanto mais entende como pode ser sujeito da história, mais acredita em si mesmo. Em outras palavra o Zé Ninguém quer ser um Zé Alguém, ainda que faça parte da opinião pública, de ser um homem comum, do distinto público.

O Zé Alguém tomou consciência que pode ser senhor de si mesmo e do seu mundo. Aprendeu como ser um homem senhor de si mesmo e ter certeza que nada há de errado com o que pensa e faz. Não tem mais medo de olhar para si mesmo, nem das críticas, nem do poder que está em suas mãos. Agora sabe que pode ser diferente, livre das intimidações, sincero e refratário às manipulações, capaz de reagir, mas não com um ladrão no meio da noite, mas em plena luz do dia. Não se assusta com a verdade ainda que seja perigosa e que pode ser saudável, mas qualquer turba pode se apoderar dela. Não pactua mais com os que acham que os fins justificam os meios, por mais abjetos que sejam. O Zé Alguém, ao contrário do Zé Ninguém, não ultraja a liberdade que é conferida pelas instituições democráticas, faz o possível para preservá-las e lhe dá bases firmes na sua vida cotidiana. Zé Alguém não quer mais deixar as ruas, sejam elas físicas ou nas redes sociais. 

Peço desculpas ao autor dessas ideias, Wilhelm Reich, pelas mudanças no seu texto original Escute, Zé Ninguém.(Ed.Martins)