Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Kombi Forever

Três homens armados e encapuzados invadiram a casa da minha família na nossa reserva ambiental. No meio das ameaças de morte e de por fogo em tudo, diziam que queriam a arma e o cofre. Lá não tinha nem arma, nem  cofre. Reviraram tudo o que puderam, tiraram quadros da parede, arrastaram móveis, viraram poltronas de pernas para o ar, sempre intercalando com a ameaça de morte. Revolver na cabeça dos rendidos se sucediam. Ninguém sabia onde tudo aquilo poderia acabar. O pior era tomar um tiro. Sem cofre nem arma começaram a juntar tudo o que podiam carregar. Pegaram talheres, uma cabeça de metal do Buda, brinquedos, lençóis, objetos de decoração. Juntaram parte da roupa sob um tapete. Ou iam enrolar tudo para levar, ou por fogo, como prometiam. Do lado de fora só um carro da família com a chave. Não era a Kombi, que tinha ficado na oficina mecânica.

Levaram também as camisas do Corinthians e uma coleção de miniatura de kombis. Tinha de vários tipos. Amarelas, vermelhas, saia e blusa, com um ou dois vidros frontais, com prancha de surf, pneus faixa branca. Eram de vários tamanhos e preços. Algumas importadas. Todas presentes de amigos. Imaginei que os carrinhos deveriam ser para seus filhos. Enfim levaram as Kombi objetos de desejo expostos em lojas, banca de jornais ou em caixas de padaria. O que será que fez um veículo tão exótico marcar tanto o  imaginário da sociedade brasileira, capaz de cativar jornalistas e assaltantes? O carro chegou ao Brasil no momento que a população migrava do campo para a cidade. Nem mesmo a fabricante imaginava que o veículo que podia kombi nar transporte de cargas e de pessoas pudesse ir tão longe. Ela se integrou nas transformações  que a sociedade brasileira passava na década de 1960. O processo de migração inchou as cidades, e o empreendedorismo passou a ser uma prática de sobrevivência. Micros e pequenos negócios se multiplicaram e precisavam de um veículo leve, barato, econômico, bom custo benefício  e que pudesse levar a família para uma farofada na praia no final de semana. Daí o sucesso da Kombi. Tinha tudo, menos agilidade.   

A kombi se tornou uma ferramenta de ascensão social, sobrevivência e lazer. E ela, para gáudio Volkswagen, durou tanto quanto durou o ambiente de prevalência do micro empreendedorismo. Por isso permaneceu no Brasil mais do que em outros países onde foi fabricada. Conseguiu conservar suas características originais mesmo com  a chegada das van concorrentes, duas vezes mais caras, ainda que tecnologicamente avançadas. A emergência de novas camadas sociais situadas abaixo do nível de pobreza deram a kombi uma sobrevida. Durou até dezembro de 2013. Os assaltantes foram presos, mas a coleção de miniaturas nunca foi encontrada. Deve ter sido vendida para um receptador fã de kombi. Os amigos se juntaram e me presentearam com uma nova coleção. Sai a Kombi, mas ficam os carrinhos nas estantes e vitrinas. Forever.