Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Nem a pau Juvenal

 Um dia uma velhinha chega no açougue do super mercado e pede uma determinada marca de mortadela. O atendente tenta vender a ela outro produto, certamente de qualidade inferior. A boa senhora não hesita e pergunta : “Meu filho, qual é o seu nome?  “ Juvenal responde o simpático atendente. Ela de forma contundente diz que não vai trocar o produto com  um “ Nem a pau Juvenal.” Certamente ela não estava se referindo ao velho Juvenal que viveu no império romano e escreveu algumas sátiras sobre a vida política local. Foi ele quem descobriu que os imperadores usavam de uma astúcia para não atender às reivindicações populares. Distribuia para o povo pão com o trigo barato que vinha do Egito e da Cecília. Um pão bem seco, que ao entrar em contato com o estômago inchava e tirava a sensação de fome dos miseráveis de Roma. Mas e para encher a cabeça deles?.

Em Roma tudo se compra, definia Juvenal sobre como se dava o acesso aos cargos mais poderosos. Para isso era preciso comprar o sossego dos miseráveis empanturrados de trigo. Era preciso encher a cabeça do populacho. Recorria-se aos espetáculos no circo onde a multidão se refestelava ao ver homens e animais serem sangrados. O povo delirava e voltava para as suas taperas satisfeito. Daí nasceu a expressão pão e circo.  Gladiadores, leões e cristãos alegravam as tardes do anestesiados. Longe da arena os políticos se apropriavam das riquezas, dividam ao botins, assumiam os mais altos cargos e participavam de animados festejos dedicados ao deus Báco. Os bacanais. Por mais complexa que fosse a burocracia romana, Juvenal perguntava: “ Quem vigiará os vigias”?

Graças ao desenvolvimento do nacionalismo doentio foi possível criar uma alternativa para anestesiar o povo de suas reivindicações: o inimigo externo. Este artifício é para ser usado em situações de crise, quando há ameaça de uma rebelião popular e as estruturas de privilégios correm risco e dos aproveitadores serem flagrados. Juntar todos sob uma mesma causa, seja ela por um pedaço de terra, um arquipélago, uma pseudo agressão militar ou ainda um time de futebol com a camisa nacional, o manto sagrado. Os adversários se transformam em inimigos e enquanto dura a porfia lança-se mão de tudo o que pode ajudar na vitória: rezas, promessas, gritos, palavrões tudo regado ao refrigerante nacional, a cerveja, agora liberada no Coliseu contemporâneo. A obra da arena romana, tocada pelos escravos, custou muito pouco, mas o velho Juvenal, indignado com o espetáculo ainda acreditava que nenhum culpado pode ser absolvido pelo tribunal da própria consciência. Ele se referia ao império dos césares.