Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Reportagem Investigativa

O repórter Cid Barbosa era o mais sacrificado da equipe. Entrava para trabalhar por volta da meia noite e saia depois que o sol nascia. Não era fácil embarcar em uma viatura do Sistema Globo de Rádio, em São Paulo e cobrir os assuntos da madrugada. Precisava ter fibra e estômago. Geralmente eram casos policiais com assassinatos, chacinas, roubos e um sem número de barbaridades. Esperava, como todos, a oportunidade de mudar de período. Na madrugada do dia três de outubro de 1992, um domingo, trabalhou normalmente. Era dia de eleição, a cidade iria escolher o seu prefeito, e o PMDB tinha como candidato Aloysio Nunes Ferreira. O governador Luis Antonio Fleury estava empenhado em eleger o candidato do seu partido.

Jornalistas trabalham em dias de eleição, mesmo domingo. As manchetes da Folha e do Estadão diziam que a PM havia invadido o Carandiru e no confronto com os presos morreram 8 pessoas, segundo um, doze, segundo o outro. Cid chegou na redação da Rua das Palmeiras, por volta das 6  horas da manhã, quando eu entrava para apresentar o Jornal da Excelsior. Disse-me que durante a noite tinha estado do IML e que os mortos do Carandiru eram dezenas. Perguntei se ele tinha visto os corpos. Ele disse que não, mas podia garantir que o número era muito maior do que diziam os jornais e que ele faria um relato no ar. Disse a ele que era um risco grande de errar. Ele insistiu. Eu era o gerente de jornalismo e disse a ele que se estivesse errado seria demitido.

Por volta das 6 e10 ele deu a notícia com a convicção de um grande jornalista. A redação se movimentou para obter mais notícias, Repórteres foram   mandados para os outros IMLs da cidade. As seis e meia liguei para um coronel da PM e ele me disse que tinham morrido dezenas. Quantos? Mais de cem. A noticia estava confirmada. Um alívio. Uma repórter foi a casa do secretário da segurança, Pedro Franco  de Campos, que passou por ela correndo e embarcou em um helicóptero. Sumiu, foi votar no interior. O governador não se achava.Diziam que estava em Sorocaba. Os repórteres relatavam corpos nos IMLs. Só depois que as urnas fecharam. lá pelas cinco da tarde, é que o governador falou com a imprensa. Confirmou a morte de mais de cem detentos. Foi o trabalho e a dedicação do Cid que resultaram na apuração da notícia. Seu trabalho tinha derrubado tudo o que tinha sido publicado até então.. Em tempo, o candidato do governador perdeu.