Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Sem Defesa

A biografia de Dom João VI, rei de Portugal, pai do primeiro imperador do Brasil, não é das mais elogiosas. Alguns historiadores o classificam como covarde, submetido aos interesses britânicos e um babão. Poderia, segundo eles, enfrentar uma pequena tropa francesa comandada pelo general Junot e ficar na Europa. Preferiu fugir para os trópicos. Às escondidas. Abandonou o povo à sua própria sorte. Apropriou-se do tesouro nacional e não ouviu a única pessoa sensata que  pedia que ficasse, sua mãe Dona Maria, a louca. Outros historiadores dizem que ele foi um hábil diplomata que soube jogar com as duas potencias imperialistas da época, França e Inglaterra. Ora apoiava uma, ora outra. Isso atrasou os planos de Napoleão que tinha imposto um bloqueio comercial aos produtos ingleses. E partiu para o Brasil com o mérito de ter conseguido ficar sob o escudo da maior marinha do mundo, a britânica.

Quem tem razão sobre o perfil do rei? Todos e ninguém. Os historiadores selecionam os fatos, pesquisam as fontes, formam convicção e publicam a biografia. Geralmente o biografado, morto, não reclama de nenhuma versão. Um ou outro descendente pode até discordar, mas ao invés de entrar na justiça, contrata um historiador e manda publicar o que acha que correto sobre a vida do personagem. Isto vale para personagens famosos como o líder revolucionário francês Jean Paul Marat, o editor do jornal O Amigo do  Povo. Marat era médico, cientista e político. Na biografia escrita por Olivier Coquart( Marat, Ed.Scritta) o meu herói predileto da Revolução Francesa é tratado com muita crítica e pouco elogio. A assassina de Marat, Charlotte Corday, fez dele um mártir, um personagem lendário, um objeto de culto. Se ela não o matasse ele morreria da grave doença irreversível. Portanto há muitas biografias de Marat,o  editor e político, com avaliações diferentes de sua conduta e participação na revolução. Mesmo assim ele continua meu herói.

Escrever uma biografia é escrever a história. Ela tem como fio condutor a vida do personagem sempre inserido no contexto histórico que viveu, seja ele um biografado já morto ou não. A história não estuda somente os fatos materiais, as instituições: o seu verdadeiro objeto de estudo é a alma humana, a história deve propor-se ao conhecimento daquilo  em que esta alma acreditou, pensou e sentiu nas diversas idades  da vida do gênero humano, diz o mestre Fustel de Coulanges. Por isso as biografias são tão importantes, como Os Heróis, de Carlyle, onde elogia o dirigente paraguaio rival do império brasileiro. Sem biografia a história não existe. Quem pode ser contra a biografia? Talvez aqueles que não sabem que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. K.Marx.