Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Sem Porteira

Há um debate na sociedade brasileira sobre os limites de interferência na privacidade das pessoas. Os documentos mais emblemáticos sobre a democracia moderna deixaram claro que é preciso respeitar os direitos das pessoas. Está escrito nos escritos que vieram da Revolução Gloriosa, Revolução Americana, Declaração dos Direitos do Homem e da Revolução Francesa. Portanto essa preocupação se cristalizou nos finais dos Séculos 17 e 18 e passou  por muitos embates políticos e filosóficos. A tradição mundial proveniente dos tempos antigos era da interferência do Estado na intimidade das pessoas, fosse ele representado por um rei, imperador, ditador teocrático ou não. Custou muito para se por uma barreira no avanço desenfreado sobre o que as pessoas faziam ou deixavam de fazer em suas casas. A delação de ordem política, sexual ou religiosa ajudou muito essas violações da lei e da integridade humana. Muitos pagaram com a vida o desejo de conduzir o próprio destino sem interferência.


O Estado deve representar o conjunto da sociedade e suas diversidades. Quando cai no controle de um determinado grupo social se torna um instrumento de opressão e dor. Deixa de ser plural e passa a ser sectário e a punir tudo aquilo que não é a sua imagem e semelhança. Vejam Maquiavel.  Por isso a preocupação dos formuladores do sistema democrático em garantir instrumentos para que as minorias, sejam quais forem, tenham os seus direitos respeitados e assegurados. Há a ameaça, sempre presente, de um sistema que saiba de tudo, escute tudo, vê tudo e pode influir no dia a dia dos cidadãos, como tantas vezes já foi retratado em obras de ficção, ou em tentativas reais de se erigir um governo totalitário. Nesse panorama vale  tudo, da delação à traição, do ódio a conquista do poder seja lá por que método for.

Vivemos uma nova e ampla Ágora. Muito maior do que a de Atenas na época de Péricles. Nela todos os seres humanos podem participar e debater as suas opiniões livremente. Ela é constituída de uma imensa mandala, tecida globalmente, com um equipamento em cada um dos seus nós que são capazes de receber e emitir mensagens. Um momento inédito na história da humanidade, onde qualquer pessoa pode, ou poderá em pouco tempo, dizer o que pensa sem a presença do Estado espiando através dos seus ombros o que se escreve no teclado. Paradoxalmente, como tudo, essa nova era trás dentro de si a contradição de criar um instrumento de grande eficiência para o controle da sociedade. A mesma faca que serve para descascar a fruta pode ser usada para matar o cozinheiro.