Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Velha Conhecida

Só recentemente muitas pessoas tomaram ciência da existência da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Começou com a defecção do funcionário Edward Snowden e suas peripécias até conseguir asilo na Rússia. Ela se tornou ainda mais conhecida quando vazaram noticias que a NSA fazia espionagem em correspondência eletrônica de países amigos. Entre eles o Brasil. Contudo, desde 2005 a agência foi alvo de uma reportagem do New York Times sobre um programa ilegal e global de interceptação de mensagens. O Der Spiegel conta que os principais editores foram chamados na Casa Branca para uma reunião com a secretária de Estado, Condoleezza Rice. O presidente era Bush. Foram pressionados para impedir a reportagem do NYT e outras com o mesmo conteúdo. Não deu certo. Tudo foi publicado. Prevaleceu a ética do jornalismo que faz com que os suas publicações sejam convincentes e acatadas pelo público. O  apelo nacionalista de que uma publicação como essa poderia por em risco a segurança nacional não vingou. Ou seja ficou claro que são os cidadãos que devem determinar quais são os padrões que devem ser respeitados.E não o Estado. Quem pune a publicação é o público que pode impor sua decisão de ler, ver, ouvir o que se divulga. Não há outra punição possível  no campo democrático.

 

Vez ou outra surgem conflitos entre o Estado e as publicações jornalísticas. Acusam os jornalistas de impatriotas, traidores, ausentes de civismo por publicarem questões que o Estado entende sensíveis. Afinal é consenso que o Estado tem permissão para ocultar informações de seus cidadãos e só divulgá-las quando considerar que não vão provocar riscos.Como os documentos que mostraram a fuga de reféns americanos de Teerã, após a revolução islâmica. Virou filme. Mas do outro lado, também é consenso, que os cidadãos  tem permissão para divulgar esses segredos, se tomarem conhecimento deles e julgarem relevantes a divulgação. Por isso, os funcionários pagos pelos cidadãos têm o dever de zelar pela segurança das informações sob a sua guarda. Uma vez vazada, cabe ao jornalista divulgar. O Estado não possui nenhuma esfera privada, é tudo público, ao contrário dos cidadãos que possuem esfera privada e devem exigir do Estado o respeito a ela. Se a NSA ou outras agências governamentais  de segurança não são capazes de administrar as informações que julgam sensíveis, ele não pode responsabilizar a mídia pela divulgação de fatos e dados. É culpar o termômetro.

 

A luta entre o Estado e a mídia é tão antiga quanto a Revolução Francesa. Há inúmero episódios relatados pela história . Se é legítimo o Estado manter informações secretas, e todos o fazem, também é legítimo que a mídia publique as informações que foi capaz de obter das entranhas do Estado. Este reage com a lei que é crime revelar identidade de um agente do seu próprio governo. Geralmente a corda estoura do lado da fonte, que identificada é processada. No entanto os jornalistas se defendem com o direito de se recusar a apresentar a fonte ou as provas de suas reportagens, o que também está garantido na lei da maioria das nações democráticas. A autoridade do Estado advém dos cidadãos que exigem informações amplas, isto significa que a divulgação  de informações públicas é um dever cívico do jornalista e a quebra do sigilo é um indicador da qualidade de uma democracia.   

 

( Der Spiegel – A Traição é Um Dever Cívico, Thomas Darnstädt)