Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Sob a Ótica

Conta-se que certa vez um jornalista foi entrevistar o líder Mao Zedong e lhe perguntou que avaliação fazia da Revolução Francesas de 1789. Ele respondeu que não podia fazer uma análise porque o fato era muito recente. A civilização chinesa é milenar, a elaboração de uma teoria sobre a administração do Estado data de cinco séculos antes da nossa era. Portanto não pode se comparar com outros povos que desenvolveram suas culturas em pouco tempo. O mesmo vale a para Igreja. Contabilizada a herança judaica do cristianismo, expressa do velho testamento bíblico, ele é quase tão antigo como a China. Por isso entre a renúncia de um papa a outro há um período de uns quatro séculos. Em dois mil anos, uns quatro ou cinco abriram mão do trono de São Pedro pelos mais diversos motivos. Sob a ótica budista o Papa dá uma demonstração de desapego ao poderoso cargo de chefe de uma instituição que congrega mais de um bilhão de seguidores em todo o mundo. Ele sabe que o apego é responsável pela infelicidade pessoal dos seres humanos e o desatino das instituições que dirige, e que a vida é uma ponte, portanto não constrói  casas sobre ela.

A primeira batalha para decidir se abre o não mão de um posto de grande poder e visibilidade, como o papado, é contra o ego. Em uma hora desta ele reage, luta, pula, inventa as mais ardilosas armadilhas para impedir o gesto. Trocar a popularidade global pela meditação em um convento até o fim dos dias não é o objetivo de nenhum ego açulado. Um homem que andou e lutou décadas e décadas para chegar a situação de ponficex maximus, enfrentou concorrentes fortíssimos, foi obrigado a ouvir o que não quis, teve que recuar e admitir muitas vezes que não chegaria lá, e abre mão de tudo isso é porque está, neste momento, mais comprometido com a igreja que comandou que com os bajuladores de sempre. O papado é uma instituição única no planeta: pressupõe o poder divino, carrega o instituto da infabilidade, do absolutismo, da santidade, da perpetuidade, lidera uma estrutura hierárquica global de sacerdotes, inspira a parte da humanidade católica e movimenta muito dinheiro. É um posto poderoso ainda que não tenha nenhuma divisão de exército como queria Stalin no final da Segunda Guerra Mundial.

Nem o papa é eterno. Submete-se a impermanência descrita no budismo. A auto salvação é uma tarefa urgente para todos, inclusive para ele. Tem agora tempo para meditar nas palavras do Buda:” Trabalha para a tua própria salvação com diligência”. Independentemente de sua idade e saúde pode se iluminar, mesmo não sendo budista. Poderá estar frente a frente com a divindade, sem intermediários, diferentemente do que pregou durante toda a sua vida  na sua religião. Cada homem sofre as consequências de seus próprios atos e não há como fugir disso. O papa está submetido ao seu próprio karma, como qualquer um de nós. Ainda lhe sobra tempo para se livrar dele e ele sabe disso. Mais do que orações vai precisar  mergulhar nas profundezas de sua mente, o que é muito mais difícil do que repetir mantras sejam budistas ou cristãos. O cultíssimo líder religioso deixa seus paramentos, solidéu, anel, palácio e se torna um ser humano comum e se for também um sábio vai encontrar o seu caminho para por um fim a roda do nascimento, morte e renascimento eternos.