Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

110 anos de meu avô Felipe

Russas (CE), 16 de abril de 1907.

Em um pequeno casebre às margens do rio Jaguaribe ainda era cedo e dona Santana pedia silêncio.

Parteira, caberia a ela ajudar Francisca no nascimento de mais um filho, o décimo quinto.

Depois da perda da pequena Antonia, ainda recém nascida, pouco mais de um ano atrás, a apreensão tomava conta de todos.

Zezé Filipe, o pai, na verdade José Filipe de Santiago Lima, se mantinha do lado de fora com os outros meninos, pela ordem de nascimento: Maria, José, Raimundo, João, Antônio, Joaquim, Sabino, Vicência, Pedro, Daniel, Francisco, Teódulo, Hermano e Vital.

Dentre os 12 filhos homens, uma curiosidade, todos tinham como segundo nome Filipe. Por conta disso, se fosse menino, resolvera que faria diferente, desta vez o primeiro nome seria Filipe. Já se fosse menina.... não ele tinha certeza que não seria.

No meio de uma manhã bem nordestina, um choro forte interrompeu o som do acauã e dele se seguiu um grito: “É menino”.

Assim nasceu Felipe de Lima Santiago, meu avô.

O caçulinha virou xodó de todos, ainda mais por conta da perda da mãe, vitimada por um galho de carnaúba, quando ele tinha apenas 11 anos, em 1919.

Dez anos depois, com a morte do pai, coube a ele partir para novas terras. O destino escolhido, e óbvio, foi a capital Fortaleza.

A entrada em um seminário, não teve como motivo o desejo de seguir o sacerdócio, mas sim a necessidade de estudar.

Acabou indo para Botucatu, pouco mais de 200 km da cidade de São Paulo, mais de 3.000 km de casa. A distância foi demais, quase do tamanha da saudade.

Voltou para a capital alencarina com uma certeza, não seria padre. Foi procurar um trabalho.

Após alguns bicos, entrou na companhia inglesa Linhas Correntes, onde ficou por quase 50 anos.

Em 16 de abril de 1939, no dia do seu aniversário, aos 32 anos, contraiu matrimônio com Noelzinda Sátiro, uma temperamental e bela moça pertencente a uma tradicional família local.

Deste casamento nasceram Roberto, José Renato e Silvio.

Vida intensa, sabedoria ímpar, olha sisudo, sorriso fácil, valores únicos, verdade...

110 anos depois, ele continua sendo ‘o garoto’ como ele costumava dizer ao se apontar nas raras fotos que tinha com os demais irmãos.

Um homem só morre quando ele deixa de estar na memória e no coração dos seus.

Por mim, posso garantir, ele sempre estará, meu vô Felipe.