Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A gestão do conhecimento e o sistema logístico nacional

 

A identificação dos fatores críticos de um processo tende a ser o grande desafio de qualquer organização que busca não apenas crescer, mas principalmente se perpetuar no mercado. Tem sido muito comum, sobretudo em nosso país, equívocos banais relacionados ao melhor entendimento sobre os itens e atividades que representam os maiores custos em um processo produtivo. A visão à curto prazo associada com a falta de investimentos na elaboração de soluções mais consistentes costuma contribuir muito na formação de uma análise míope, o que tem gerado propostas pouco eficazes no que diz respeito as iniciativas que possam colaborar de maneira efetiva em prol da estruturação de uma política industrial que potencialize o crescimento da economia.

Segundo pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral, as atividades de transporte, armazenamento e distribuição, aquelas que compõem parte significativa dos custos logísticos, representam por volta de 12,37% do faturamento bruto anual das empresas brasileiras. Adicionado a esta importante informação vem o fato do crescimento de 7,4% desta fatia nos últimos três anos, impulsionada também pelo aumento da ordem de 13%, no mesmo período, do E-commerce. Como afirmou Peter Drucker, ainda nos anos 1970, apenas a análise de dados, sua contextualização em informação e posterior inserção junto ao dia a dia organizacional é que permitirá o seu melhor uso em prol da obtenção de resultados. A isto, ele chamou de gestão do conhecimento. Sendo assim, ao analisarmos a relevância do papel da logística no processo industrial nacional, um primeiro passo importante está relacionada com a identificação dos principais fatores que impactam para a sua melhor gestão.

O primeiro deles diz respeito a concentração, superior a 75%, do uso do modelo modal rodoviário, em que pese as alternativas nos sistemas ferroviário, aquaviário, aeroviário e dutoviário. A recente greve dos caminhoneiros serviu para comprovar ainda mais a fragilidade deste modelo, fato evidenciado pelo desabastecimento proporcionado em poucos dias de paralisação. A redução e/ou quase ausência de investimentos em certos modais, tal como o ferroviário, se contrapõe as novas alternativas aquaviárias onde os investimentos estruturais têm se mostrado mais efetivos, no entanto ainda longe de se mostrarem competitivos justamente por não se perpetuarem sem a presença, ainda que parcial, da alternativa rodoviária. Quanto aos demais modelos, o dutoviário, utilizado em sua maioria para materiais fluídos, e o aeroviário, com maior custo, certamente estarão limitados a serem apoio a um sistema multimodal que em nosso país deve estar distribuído de forma mais equalitária pelas ferrovias, rodovias e pelo extenso litoral que nos banha, ao longo de cerca de 7,5 mil quilômetros. Ainda assim há caminhos a serem traçados. Eles passam, necessariamente, pela recuperação da malha ferroviária, uma das grandes desbravadoras do crescimento do país no começo do século passado, e que foi deixada à míngua nas última décadas, mas também pela reestruturação de um modelo de gestão da malha rodoviária que não se limite simplesmente a privatização mantida pela cobrança de pedágios, sem maiores investimentos na sua manutenção e na interconectividade dentre as várias vias existentes. 

Também é impossível deixar de sinalizar equívocos quanto à formação de mão de obra qualificada, capaz de atender às competências técnicas e de gestão necessárias para a evolução das atividades que contemplam as áreas de logística como um todo, no que tange não apenas ao transporte, mas também ao armazenamento e a distribuição. Fato é que há poucas iniciativas de capacitação e quando presentes, normalmente, estão muito concentradas em demandas pontuais emergentes, sem a devida visão sistêmica que cabe considerar diante a intenção de perpetuação de um modelo autossustentável. De forma complementar a esta questão, surge o terceiro fator que diz respeito ao nível das tecnologias implantadas, algo que, embora tenha evoluído nos últimos anos, ainda está muito aquém do esperado, uma vez que alcança índices de produtividade bem abaixo aos padrões adotados mundialmente. Ao citar tecnologia não está sendo focado apenas a sua mera aquisição, mas sim a estruturação de processos que contemplem seu uso de forma eficente, com geração de riqueza e melhoria dos índices de qualidade, custo e tempo, principalmente.

Diante disso, entende-se que o reconhecimento da presença dessas importantes lacunas pode contribuir de maneira significativa em prol do desenvolvimento de um plano estruturado que permita a formação de um arcabouço de conhecimentos explícitos e tácitos que construa alicerces firmes que suportem a vigência de um sistema logístico eficiente como um diferencial competitivo para as organizações, isto sim é inovar.