Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A malfadada, e injustificável, prática de não se dar retorno

Uma prática comum, aliás, cada vez mais frequente em nossos dias, e que costuma estar acompanhada por uma quantidade quase incomensurável de justificativas, talvez seja a maior herança negativa deixada pelo atual mundo corporativo que vivemos. Trata-se do famigerado hábito de não dar o retorno às pessoas que nos contatam.

Inegável o fato de um dos maiores pilares que suportam o nosso dia a dia seja o tempo, algo cada vez mais escasso, ainda mais por conta de tantas decisões que temos que tomar a todo o momento. Também creio haver consenso quanto a grande quantidade de pessoas com as quais convivemos, o que torna ainda mais complexa a gestão do nosso tempo. Enfim, ao que parece certamente temos motivos muito plausíveis, igualmente pouco confortantes para a nossa consciência, para afirmarmos as razões pela quais, muitas vezes, optamos por deixar as pessoas no chamado ‘vácuo’, que é a expressão utilizada pelas novas gerações para contextualizar aqueles que ficam sem resposta.

Há sempre o lado que permeia a questão, que tem a ver com a razão que motivou alguém a nos contatar. Aqueles que tomam como regra básica, não retornar, assumem para si o poder de dar, ou não, a devida relevância ao contato feito, desobedecendo alguns preceitos básicos para qualquer ser humano. Ninguém pode, ou poderia, se colocar, ainda que haja pressões da sociedade no sentido contrário, acima de qualquer um, e tomar para si esta atribuição. Ainda que estejamos inseridos no mundo corporativo, se formos apenas um pouco óbvios, e entendermos que as posições que ocupamos possuem uma duração altamente temporária, isto é, estamos em determinado cargo, mas não somos donos deles, entenderíamos que ignorar ou ‘colocar em banho maria’ as mensagens, e respectivos pedidos de retorno, é uma prova de pequeneza e clara ação de auto sabotagem da qual seremos vítimas futuramente.

Isto me faz lembrar muito, o que acontece com os ‘calouros’ que a cada semestre começam suas vidas universitárias, e costumam ser vítimas de agressões e brincadeiras jocosas dos ‘veteranos’, que justificam seus atos, com o lacônico “eu sofri como calouro então eles terão que sofrer também”. Está inequívoca lógica, que tanto nos aproxima dos seres mais apedeutas que habitam este mundo, explica muito o quanto a nossa evolução como pessoa e profissional tem a ver com a nossa educação, aquela que recebemos de casa, a que vem junto aos valores que iremos carregar até os últimos dias de nossas vidas. Nada é mais desrespeitoso que a ‘não’ resposta, uma prova cabal da importância que dispensamos a outrem e que não gostaríamos de receber.

Ao darmos um retorno a alguém, ainda que o teor do mesmo não esteja alinhado aos desejos do emissor, sinalizamos respeito e muito mais que isso, mostramos a nós mesmos a forma como gostaríamos que todos nos tratássemos. Mas há ainda algo pior que é a segregação daqueles que foram eleitos, a serem dignos de receber os nossos retornos, aqueles que farão parte de uma garbosa lista cujo único combustível é o interesse óbvio e de curto prazo.

Certamente o tempo, ou a sua não muito adequada gestão, tem muito pouco a ver com esta prática que tem o poder de explicitar um pouco daquilo que temos de pior. A boa notícia é que dependemos apenas de nós mesmos para mudarmos isso. Basta querer.