Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

As constrangedoras relações entre chefe e subordinado

Atribuída à Maquiável a frase “Dê o poder ao homem e descobrirá quem ele realmente é” parece vagar a mente de muitos que nos dispomos a falar daqueles que ocupam cargos de liderança em organizações, quaisquer sejam seus tamanhos e relevâncias. Quando criança lembro com certo frescor minha admiração pelo chefe dos frentistas de um posto de gasolina perto de minha casa. Ainda que não houvesse qualquer sinalização explícita em seu crachá, o fato dele deter um calhamaço de notas de dinheiro, o envolvia em uma áurea toda especial. Mal podia imaginar que a concentração do dinheiro nas mãos de uma única pessoa tinha como função apenas facilitar a devolução de troco, em tempos quando o dinheiro em papel era a principal, senão a única, forma de pagamento utilizada. Ainda assim ouvia com certa admiração, ele ser chamado de ‘o dono do dinheiro’ e creio que, com certeza, ele também gostava desta denominação, ainda que sua remuneração não fosse muito diferente a de qualquer um dos outros frentistas. Aquele homem com tanto dinheiro em suas mãos exercia notória influência sobre os demais.

 

Nos dias atuais a relação entre os colaboradores de uma determinada empresa não foge muito desse modelo de poder. Ainda que seja fácil identificar diferenças fragrantes entre aqueles que chefiam suas equipes e os que preferem liderar, a afamada distinção existente entre os chefes e os líderes, há muitas semelhanças entre eles. De forma mais rebuscada, muito por conta da preocupação em estabelecer eficientes estratégias de persuasão, uma vez que ficar segurando um bolo de notas de dinheiro deixou de ser uma prática, boa parte dos profissionais que ocupa cargos de liderança costuma adotar iniciativas participativas junto aqueles a quem exerce alguma influência hierárquica. Muitas delas incluem sessões de trocas de ideias, compartilhamento de sugestões e até mesmo práticas colaborativas voltadas para a descentralização na tomada de decisão. A voz mansa e certos afagos, incluindo afetuosos abraços e um olhar caridoso, sobretudo no início do dia, também costumam fazer parte dessa novela corporativa. Aos subordinados cabem o papel de abraçar esta espontaneidade tacanha em nome da manutenção do bom ambiente. A distribuição de sorrisos blasés costuma ser o maior momento de harmonia entre os membros de uma equipe de trabalho. Impressionante notar a perpetuação da crença que a existência de uma relação de amizade entre os colaboradores seja algo tão necessário para a manutenção de um ambiente competitivo. Mas a verdade é que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

 

Talvez por uma questão cultural, em terras tupiniquins, costumamos tanto utilizar o agradecimento como forma polida de gratidão por alguém ter feito aquilo que na verdade não passa mais que sua obrigação. O agradecimento parece vir como forma de afago, um sinal de boa educação, quase um berço familiar. A cara de pau corporativa é tamanha que o ‘de nada’, ‘não há de que’ e/ou o ‘disponha’ recebidos como devolutivas vêm basicamente sacramentar este equívoco patético. Tudo em nome da pseudo perpetuação de um clima organizacional amistoso que costuma deixar qualquer guerra fria entre norte-americanos e soviéticos mera indisposição pontual. Diante disso, aos chefes costumam caber a incubência de indicar e/ou orientar o que tem que ser feito. Já aos subordinados, muitas vezes impregnados pelas convenientes vestes do comodismo, exercer suas atribuições sem se desdobrar em um milímetro daquilo que realmente acreditam ser importante, afinal ‘estou aqui para cumprir ordens’.

 

Em tempos de intensa volatilidade nos cenários corporativos que nos cercam, onde verdades absolutas passaram a ter validades exíguas e questionáveis de um momento ao outro, investir em relações pessoais, ainda que profissionais, mais transparentes e efetivamente voltadas a busca de melhores resultados parece ganhar novos contornos. Isto não depende de qualquer orientação organizacional, tampouco sinalização formal hierárquica, mas sim da convicção do real papel a ser exercido por qualquer profissional. Quase que uma obrigação moral. Quase?