Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Caminhos que se cruzam

Por volta das 22:20 do dia 22 de dezembro de 2016, triste e cabisbaixo Xavier estava na sala de embarque do aeroporto de Cumbica, em São Paulo, prestes a partir para Manaus. A expectativa para a saída do voo, programada para 23:10, era enorme, por conta do pior compromisso de um pai, o velório de um filho.

Gabriel, um menino com pouco mais de 22 anos morrera no dia anterior na capital paulista após seis anos de luta contra um maldita doença. Morador da cidade paraense de Santarém, distante cerca de 1.500 km da capital do estado, Belém, os pais conseguiram apoio médico apenas em Manaus, de onde o menino fora encaminhado para tratamento em São Paulo, ainda com 16 anos.

A perda da perna, logo no princípio, e a notícia que a doença se espalhara pelo corpo, fez com que as viagens entre as regiões norte e sudeste se tornassem frequentes. Tantas ida e vindas, alinhadas as dificuldades em arcar com os custos, parcialmente suportados pelo governo amazonense, graças a uma decisão judicial, ainda que com atrasos frequentes, fizeram com que Xavier e a mulher, Anete, resolvessem mudar com toda família para São Paulo. Acreditavam que esta seria a melhor forma da família, complementada por mais um menino e uma menina, adotada, com necessidades especiais, permanecesse junta.

A mudança para a terra da garoa foi bancada com recursos de toda a família e se efetivou nos primeiros dias de dezembro de 2016, pouco antes do diagnóstico final a Gabriel. O jovem rapaz, sempre muito otimista quanto a sua doença, resistiu bravamente, até pedir que fosse sedado. Partiu.

Na manhã do dia 22, no voo das 9:00, Xavier se despedira do filho morto, e da mulher, com quem dividira um sanduíche, sua, até então, última alimentação daquele dia, que partiram para Manaus. De lá, o corpo seria encaminhado para um necrotério à espera de sua viagem derradeira para Santarém, no dia seguinte, onde haveria o sepultamento.

Tanta coisa para se pensar, a se lamentar, ainda assim Xavier aparentava estar tranquilo, talvez anestesiado, diante a sua única preocupação naquele momento, chegar em Manaus a tempo de pegar a lancha que partiria às 5:30 da manhã do dia 23, em direção a Santarém, em uma viagem de cerca de 12 horas, a única possível diante os altos custos envolvidos. O enterro estava marcado para às 18:00, horário previsto, também, para que o preparo feito ao corpo fosse o suficiente.

Tudo estava sincronizadamente planejado, até que minutos antes do embarque, o alto falante anunciou que ‘por problemas técnicos’ a saída prevista do voo mudara para às 2:40 da manhã. Xavier, pode parecer incrível, calmamente, se dirigiu para a funcionária da empresa aérea, e demonstrou sua preocupação de não chegar a tempo do enterro do filho Gabriel. “Não há nada que possa ser feito” respondeu a moça, sem dar muita importância, talvez por realmente não ter o que fazer. Errado, havia algo a ser feito, sempre há.

Coube a um dos passageiros, um pleno desconhecido, até então, seu novo amigo, a informá-lo que a chegada em Manaus estava prevista para 4:30 da manhã, horário local (registra-se as duas horas de diferença entre os horários paulista e amazonense), incrivelmente recebida como “a melhor notícia do dia, a tempo de pegar a lancha e ir ao encontro do filho”. Também foi desse amigo, que ele pegou o celular que passou a utilizar, uma vez que o seu acabara a bateria, e o carregador fora levado pela esposa, para manter a família informada sobre a mudança de horário.

Com dinheiro contado, e sem o lanche que deveria ser oferecido pela empresa aérea, acabou por gastar valiosos R$ 5,00 por uma lata de Coca Cola, quando foi chamado por seu amigo para fazer sua primeira alimentação em mais de 12 horas, na verdade o que havia disponível naquele horário em um dos maiores aeroportos do mundo, dois salgados e um croissante. Com a barriga apenas ‘tapeada’, recebeu mais alguns sanduíches, bem feinhos, que seu amigo pegou da bandeja que a empresa aérea passou a oferecer, já no meio da madrugada. Guardou um deles para comer durante a viagem de 12 horas, entre Manaus e Santarém, de lancha

Uma tempestade de pensamentos povoavam sua mente durante as 3 horas e meia de voo. Impossível enumerar. Tão logo o avião aterrisou no aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, lá estava Xavier partindo para encontrar sua esposa e irem em direção ao porto da cidade, distante cerca de meia hora do aeroporto. A lancha os esperava.

Em 23 de dezembro por volta das 18:00, Gabriel foi enterrado em Santarém sob os olhos dos pais, que acabaram de chegar a cidade.

No dia 25 de dezembro nasceu em São Paulo, Manuelle, a primeira neta de Xavier e Anete, sobrinha de Gabriel.

Ainda com o número do celular do amigo passageiro de seu marido, registrado por conta das inúmeras ligações feitas durante a madrugada de espera no aeroporto, Anete, ainda que devastada pela maior perda sofrida por uma mãe, reuniu forças para mandar a seguinte mensagem a ele:

“Deus, sempre nos surpreendem com pessoas, que surgem nas nossas vidas. Obrigada,  por estar no caminho do meu esposo na hora mais difícil que foi pra nós. Só Deus sabia, como eu estava preocupada com ele, por ter ficado no aeroporto, sozinho, depois da morte do nosso filho. Mas Deus colocou o senhor no caminho dele. Muito obrigado, e desde já um feliz ano novo. Que seja repleto de paz, amor e ricas bênçãos pra você e sua família”.

A vida poderia ser mais divina?

 

(Caso real acontecido entre os dias 22 e 23 de dezembro de 2016, nos aeroportos de Cumbica, em Guarulhos, e Eduardo Gomes, em Manaus, durante voo da LATAM 3746, com nomes das pessoas devidamente alterados.)