Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Cão, Gato e Sapo, o que somos e os papeis que assumimos

Tenho um cachorro que se chama Alfred, uma homenagem ao mordomo da dupla Batman e Robin na famosa e pixotesca série dos anos 1960. Trata-se de um Golden Retriever, surpreendentemente, para uma raça tão dócil, não muito inclinado a demonstrações de carinho. Abraçá-lo então é um grande risco. Ainda assim, sua cara bonachona transmite imagem de uma grande bonecão de pelúcia, pronto para ser afogado por abraços e beijos. Isto se desfaz quando Torresmo entra em cena.

Torresmo é um felino que costuma aparecer pelo quintal de casa, uma alusão ao parceiro do palhaço de Pururuca que fez muito sucesso na televisão nos anos 1970. Sempre que Torresmo entra próximo ao raio de visão de Alfred, a algazarra se faz presente, um resultado da histórica inimizade entre cães e gatos. Recentemente assisti em um desses programas sobre animais que esta desavença eterna se perpetua basicamente por conta dos comportamentos assumidos por felinos e caninos. O gato, ao ver um cão, se porta como a caça e assume todos os trejeitos intimamente ligados à fuga. Já o cão, ao avistá-lo como caça, traz para si o papel de caçador. Se esta explicação é verídica, ou não, ao menos faz algum sentido, ainda mais ao notarmos certa correlação com o nosso dia a dia.

Costumamos abraçar características e/ou nos portar de forma análoga às posições que assumimos. Quando focados e predispostos, próximos ou em rumo a alcançar aquilo que colocamos como metas. Se prostrados e entregues, distantes dos desafios e alinhados com o nada, não desejado mas, certamente mais alinhado. No entanto, ao contrário do que acontece com Alfred e Torresmo, já fadados aos mesmos papeis, temos o livre arbítrio de escolher quais dos papeis assumir.

Mas o quintal lá de casa possui outros protagonistas. É assim por lá, assim como na vida. Ao lado do espaço escolhido para dormir, Alfred costuma ter um inusitado companheiro, Webster, o sapo. A razão do seu nome se remete a um garoto, meio gordinho, dono da bola, que jogava futebol conosco na rua, e que não costumava se movimentar muito, assim como o anfíbio, que folgadamente tripudia de sua paciência ao se banhar no seu pote de água. Alfred nada faz com ele. Webster não tem noção que um simples carinho canino o seria fatal.

Assim são os sapos, eles se adaptam perfeitamente com o ambiente em que vivem, e parecem pouco se importar com os perigos que correm. Talvez tenha sido também em algum programa de televisão, que tenha visto sobre isso. Se um sapo for colocado em um recipiente com água em temperatura ambiente, ficará lá estático durante todo o tempo, ainda que aquecemos a água até seu ponto de fervura. Segundo o apresentador, ele não irá reagir ao gradual aumento de temperatura, mas irá morrer quando a água ferver. Por outro lado, se colocado diretamente em um pote de água quente, ele pulará desenfreadamente, chamuscado, mas vivo.

Fascinante anfíbio. Quantas vezes, agimos como ele e não notamos as mudanças que nos cercam? Ainda mais desafiador ao verificarmos que ainda que se adaptar seja algo valoroso, o quanto não pode parecer ser a opção mais confortável? Ao mesmo tempo, a mais perigosa. Neste sentido, o cão e o gato, Alfred e Torresmo, assumem os papeis que lhes interessa, no caso os únicos disponíveis, correndo os riscos que conhecem. Já o sapo Webster continua se achando inexpugnável, até quando?