Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Decisões tomadas e os fardos que delas decorrem

62 a.C., Pompeia,  a mulher de Júlio César, pontífice máximo do Império Romano, resolveu organizar uma festa em homenagem a Bona Dea (“boa deusa”) com a participação apenas de mulheres. Acontece que Públio Clódio, um jovem político romano, conseguiu entrar na festa, devidamente disfarçado de mulher. Os fatos levaram a algumas insinuações, uma delas dizia respeito a uma eventual relação entre Pompeia e Clódio, algo que, no entanto, nunca foi comprovado.  Ainda assim, a Júlio César coube tomar a decisão de se separar de Pompeia, por conta do episódio. Quando questionado, respondeu: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. 

Será que César exagerou em sua atitude, por conta de um episódio isolado? Vai saber se acabou tomando uma decisão intempestiva, que o fez ficar sem a grande mulher da vida dele? Será que Pompeia sabia do risco que estava correndo, ao preparar a festa? Difícil tirar uma conclusão, mas certamente bem mais simples que aquela tomada por César.

A verdade é que baseado em suas crenças e em seu conhecimento sobre o fato ocorrido, César fez uma análise da situação, e a partir daí tomou sua decisão. Impossível julgá-lo por isso, ainda mais se tomarmos por base as informações que fundamentaram seu ato.

Mais possível e legítimo seria imaginar qual decisão tomaríamos se estivéssemos no lugar dele. Temos esta liberdade e ninguém deve nos julga por isso. Julio Cesar teve a dele. 

Por outro lado, o fato definitivo é que coube a Pompeia e Clódio se permitirem colocar nesta situação. O risco não previsto, não pode ser simplesmente, ignorado, e, certamente, não os inocenta. Houve um equívoco e eles arcaram com estas consequências, quer tenham sido culpados, ou não. Isto também não tem qualquer relação com injustiça, o que, se também levado ao extremo, é apenas uma questão de ponto de vista.

Caso estejamos com dúvida, a menor que seja quanto a agir ou não de determinada forma ou até mesmo se devemos desenvolver, ou não, certa atividade, quer seja no campo pessoal ou profissional, é porque na verdade, em nosso íntimo, já sabemos que não devemos fazer. Ao seguirmos em frente no ato, assumimos todos os riscos inerentes a ele.

O “nem tudo que parece, é” não pode ser utilizado como justificativa, tão pouco servir de desculpa. Mesmo porque o que vem depois são apenas tentativas para justificar algo, que caberá ao tempo nos comprovar o quanto estávamos, realmente, equivocados na forma como agimos. A liberdade sempre estará na frente e logo em seguida, a legítima consequência.

Aliás, a liberdade é algo que deve estar presente junto a todas as atividades que exercemos. Mais que isso, ela deve, ou deveria, possuir características semelhantes ao próprio ato de respirar, isto é, ser algo involuntário e essencial para vivermos. 

Quando temos isto de forma efetiva em nossas vidas, nos sentimos mais que “mais fortes”, quase que invencíveis. Mais que simples palavras escritas em um texto, uma questão certa e de compreensão óbvia.

O problema, ao que parece, está justamente no quase. E isto costuma fazer muita diferença.

A mesma liberdade que temos ao agir e/ou ao tomar alguma decisão não sequer sugere qualquer garantia que a ação e/ou a decisão em questão tenha sido a melhor alternativa. Algumas vezes, muito longe disso.

Somos sim responsáveis pelos resultados proporcionados por cada uma das ações que tomamos, e neste caso, talvez o único, não teremos a liberdade de querer, ou não, assumir pelas consequências proporcionadas por nossas ações, quer sejam boas, ou nem tão boas assim. Querer ficar apenas com o bônus é muito mais que equivocado, chega a soar infantil, na melhor das hipóteses.

Isto não quer dizer que devemos nos preocupar tão pouco nos martirizar, por qualquer ato tomado, mas sim compreender que todas as pessoas, mais ou menos próximas, também têm a liberdade de ter suas opiniões baseadas simplesmente naquilo que têm conhecimento, mesmo que ele seja o mais raso possível. Afinal, na grande maioria das vezes, “o que parece, realmente, é”.

Ter uma opinião formada a respeito de um assunto sobre o qual não temos profundo entendimento é algo que deve ser respeitado. A liberdade é a regra. Podemos pensar e achar o que quisermos, a liberdade nos garante isso. E isto está longe de ser injusto. 

Ao analisarmos de forma simplesmente analítica, opiniões fortemente embasadas têm a mesma relevância daquelas fundamentadas em inocentes pontos de vista. É plenamente irrelevante o fato de sabermos em detalhes, ou não, tudo o que justificou e/ou fundamentou qualquer decisão, mesmo porque isto não mudará a verdade. Pode parecer polêmico, mas o caso é que muitas vezes não temos sequer condições intelectuais de compreendermos muitos dos temas que justificam as atividades que nos cercam diariamente. O que não nos torna menos legítimos em emitir opiniões que estejam fundamentadas em nossas crenças e conhecimentos tácitos obtidos ao longo de nossa vida e devidamente validados por nossas experiências.