Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Gestão fill in the blanks de Projetos

Segundo um amigo de outros tempos, Roberto de Araújo Lima, um dos maiores especialistas de administração de contrato do país, qualquer cláusula de um contrato tem que ter a clareza para ser entendida por uma criança de 5 anos, se assim não estiver, deve ser refeita.

Fundamentado neste entendimento, lembro bem sua estranheza sempre que algum gerente de projeto o contatava por conta da seguinte questão: O cliente está alegando que o contrato contempla a inclusão de tal serviço, você pode verificar para mim?. A despeito do estranho fato do próprio gerente do projeto não ter conhecimento sobre o contrato que estava sob sua gestão, era evidente a dificuldade em entender os conteúdos das cláusulas contratuais, muitas vezes, casos claros de analfabetismo funcional, a incapacidade de compreender textos simples. Lamento ainda maior se considerarmos que este tipo de ocorrência não se trata de uma exceção.

O mundo corporativo tem sido afligido por uma verdadeira febre de metodologias e quase infinitas siglas de frameworks cujo objetivo explicitado é contribuir com a gestão de projetos. A esta epidemia é possível atribuir o sugestivos nome modelização de projeto ou gestão fill in the blanks de projetos. O seu uso se faz presente por conta da insuspeita e comoda necessidade de simplificar a gestão, o que tem causado, como efeito colateral emergente uma grave doença, a apedeutice crônica, mal caracterizado pela plena incapacidade de gerir os projetos a partir do uso do arcabouço de conhecimentos, experiências e senso crítico.

Os acometidos por este mal, acreditam que para cada atividade a ser desenvolvida, haverá sempre um mágico modelinho para preencher. Não tenho como esquecer do episódio, anos atrás, quando recebi a ligação de um consultor de uma renomada associação, autointitulada, como provedora de metodologia de gestão de projeto, me questionando se poderia encaminhá-lo aquele modelinho para registro de lições aprendidas. Lembro que, boquiaberto, respondi: ah, você está falando daquela planilha que tinha te mostrado naquele dia.Ao menos fiz uma criança feliz.

Competência, o conhecimento colocado em prática, está acima de qualquer modelo documental, pois demanda discussão, interação e formação de uma linha de raciocínio, questões que passam longe de qualquer produto vendido no promiscuo mercado de modelinhos práticos, planilhas milacrosas, frameworks coloridos e sessões estruturadas de brainstorming que costumam aparecer sob rebuscadas siglas estrategicamente iluminadas pelos holofotes da globalização. O mercado de metodologias sobre gestão de qualquer coisa que seja, cresce exponencialmente. Seguindo esta linha, não irá demorar muito para que os projetos sejam desenvolvidos apenas para que estas metodologias possam ser utilizadas. São os meios superando os fins.

Como disse Luiz Fernando Pondé: Fala-se muito em pensar fora da caixa, mas, na verdade, nunca o mercado corporativo investiu mais no seu contrário: as pessoas devem ser cada vez mais medíocres e respeitadoras dos limites dessa caixa.

Oportunidade única para o desenvolvimento de um diferencial