Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Muitos de nossos problemas podem ser meras especulações.

Diante a dificuldade de identificar novos caminhos e/ou até mesmo de certa dúvida sobre nossa própria capacidade de realização, a desilusão parece nos domar. A certeza de que a tristeza pode ser nossa companheira perene tende a levar-nos à escuridão. Lá, por conta da incerteza, se recolher parece ser uma boa solução. Para muitos, covardia. Entendo que seja difícil imaginar que alguém seja triste porque quer. Há outras razões a serem visitadas. Faz alguns anos, em meio a uma série de viagens de trabalho, ainda que cercado por tantas pessoas, me senti sozinho. De uma hora para outra tudo aquilo que vivia não parecia fazer sentido algum. O meu sorriso fácil continuava a ser espalhado promiscuamente. A única forma que encontrei para me proteger. Seria apenas um mero momento de infortuno, em meio de tantos outros que experimentamos ao longo de nossas vidas. A permanência neste vale, ainda que tenha sido de forma involuntária, me fez aprender certas lições. Valores abraçados pareciam estar cobrando seus preços. A quem podemos enganar e por quanto tempo?

Em tempos de aluno do colégio Santa Inês, uma entidade religiosa, me recordo das brigas frequentes que costumavam compor a hora do recreio. Irmã Zilá costumava nos pontuar que não deveríamos fazer parte delas. Obediente, assim como muitos de meus amigos, passei a ‘apenas’ assistir a brigas. Ao notar nossa passividade, fomos todos  repreendidos: “Por que vocês não foram lá para apartar?” questionou a irmã. De nada adiantou tentar despistá-la que estávamos apenas obedecendo suas ordens. Ainda que não fossemos protagonistas, fazíamos parte de todo aquele cenário. Afinal, sem plateia, dificilmente haveria os enfrentamentos. Separar as brigas, no entanto, não se tornou uma tarefa das mais produtivas. Sempre um sopapo parecia acariciar aqueles que estavam ali apenas para apaziguá-las. Foi difícil estruturar uma melhor solução, um papel a assumir. Chamar alguém para intervir acabou por se tornar o melhor caminho. Não demorou para que a alcunha de enredeiro passasse a fazer parte de nosso vocabulário. Que saudade do tempo em que isto era um problema.

A pior parte em encontrar a solução está justamente no fato de nem sempre sabermos qual é o real problema que nos aflige. Equívocos na análise da relação causa-efeito tende a fazer com que idenfiquemos o resultado como o desvio a ser corrigido, e não apenas como consequência. Minha vó costumava ser óbvia ao nos alertar, seus netos: “Se você plantar um pé de manga, sabe que um dia terá que comer manga. Ou você espera que ela dê sapoti?” Uma análise prévia de nosso atual estado dificilmente irá permitir identificar as razões de quaisquer de nossas aflições. Também surtirá pouca valia tomar decisões rasas. As raízes podem ser profundas. Mas ainda que não sejam, devem ser retiradas por completo, caso contrário logo estarão brotando novamente. Parece que muitos vivemos apenas na espera para que elas resurjam, como se delas precisássemos. Sim, muitos vivemos por conta deles, e aí daquele que se prontificar a ajudar.  

Jamais fui exemplo a ser seguido, também sequer quis assumir este papel. A mais básica de todas as virtudes para ser ter a plena ciência daquilo que somos capazes de ser, o exemplo que podemos ser para outrem. Viver silenciosamente pode ser devido. Mas também não nos cabe julgar aqueles que preferem se permanecerem ruidosos. Aquela mãe preocupada ao lamentar com sua vizinha, pelo fato de sua filha se tornar mãe solteira, foi surpreendida ao receber de volta um doce sorriso acompanhado de “que coisa boa, aumentar a família é sempre uma benção”. Afinal qual é mesmo o meu problema?