Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O caso Microvlar, o escândalo das carnes e os valores corporativos

 Empresa farmacêutica alemã fundada em 1851, a Shering chegou ao Brasil em 1923. A unidade instalada na cidade do Rio de Janeiro foi uma das primeiras subsidiárias fora do continente europeu. A partir da construção da fábrica na capital paulista em 1958 e do lançamento do seu primeiro contraceptivo oral, três anos depois, em 1961, a Schering do Brasil viveu um momento de grande expansão e se tornou a segunda maior unidade mundial do grupo em capacidade produtiva. Em 1985, com o lançamento do Microvlar, pílula anteconcepcional produzida à base de hormônios femininos, a Schering do Brasil passou a viver anos dourados. Foram pouco mais de cinco anos até assumir a liderança neste mercado, por conta dele ser considerado um produto altamente eficaz e confiável. Logo esta realidade ficaria “em algum lugar no passado”. No princípio de 1998, durante os testes de um novo equipamento de embalagem, a empresa produziu cerca de 25 milhões de drágeas de placebo, a base de farinha e trigo, sem qualquer princípio ativo.

Inadvertidamente, por volta da metade delas acabou sendo embalada e distribuída no mercado, em um gravíssimo erro de processo que daria origem a um dos maiores escândalos da história do mercado farmacêutico. Passaram poucos meses, até que milhares de consumidoras, que utilizavam o produto por anos, começaram a engravidar. No meio de muitas informações desencontradas e equívocos na identificação da causa raiz do problema, o produto foi, preventivamente, retirado do mercado. O escândalo das ‘pílulas de farinha’ ganhou as manchetes, provocando à marca danos irreparáveis, certamente não maiores que de suas consumidoras, se considerarmos, obviamente, o fato delas não quererem engravidar.

Uma das medidas adotadas pela Schering do Brasil para tentar recuperar sua imagem consistiu na contratação, em agosto daquele ano, da atriz global Maitê Proença para estrelar uma campanha publicitária que tinha como objetivo principal divulgar a ‘pleno pulmões’ que o “Microvlar estava retornando ao mercado com nova embalagem e sem alteração na sua fórmula química.” A belíssima atriz, que estava com 40 anos de idade, era uma das protagonistas da novela Torre de Babel, grande sucesso naquele ano. Dona de posições firmes e com grande credibilidade junto ao público feminino, a empresa apostou suas fichas em Maitê, como forma de alcançar o público alvo consumidor do anticoncepcional. Pois é, tudo parecia bem azeitado, até que poucas semanas depois do início da campanha publicitária, novas irregularidades rondaram o Microvlar. Desta vez, a falta de uma drágea na cartela. Mais um equívoco no processo produtivo.

Por considerar ter tido sua imagem arranhada, Maitê Proença processou a Schering do Brasil, solicitando uma indenização quase 10 vezes maior que o valor recebido para realizar toda a campanha. A atitude, considerada por alguns, como extremada, ao menos serviu de alerta para discutir a relação entre os protagonistas de grandes campanhas publicitárias e os produtos e empresas por eles ‘abraçados’, afinal, quais seriam os limites e as devidas responsabilidades das partes. Ainda que não se tenha chegado a uma conclusão definitiva sobre isso, ao menos um alerta, ainda que óbvio, foi dado: “Havia de se ter muito cuidado ao se associar sua imagem à de empresas e produtos”. Lembrando que isto aconteceu em 1998.

Passados quase 20 anos, eis que, de certa forma, fato similar voltou a protagonizar as manchetes. O atual escândalo envolvendo algumas empresas fornecedores de carne pela venda de produtos estragados, o uso de propina junto aos órgãos de fiscalização, bem como obscuras ligações com alguns políticos, fez com que uma das primeiras questões que viesse à tona fosse sobre o envolvimento de três grandes nomes do mundo artístico em suas campanhas publicitárias, são eles: a apresentadora Fátima Bernardes, o ator Tony Ramos e o cantor Roberto Carlos. Obviamente que seria um total sacrilégio associar qualquer culpabilidade, quando e se provada, dos atos praticados por estas empresas com as posturas tomadas por estes três artistas. No entanto, assim como eles foram bem remunerados para recomendar o consumo destes produtos, é inegável que muitos passarão, a partir de agora, a desconsiderar novas indicações feitas por eles, o que irá provoca-los perdas em futuras campanhas publicitárias. Esta fora um dos motivos das ações movidas pela atriz Maitê Proença junto a Schering do Brasil, quase duas décadas atrás. Cabe lembrar, que durante as suas campanhas publicitárias, os três faziam questão de afirmar que consumiam os produtos destas empresas, sendo que no caso do Rei Roberto, até dúvidas sobre sua condição de vegetariano chegou a ser levantada.

Inegável o prejuízo causado as imagens destes artistas. Caberão a eles pagar por isso, no caso, com a perda de parte de suas credibilidades junto ao seu público. Pouca coisa? O tempo dirá. Certamente alguns processo rolarão, nada mais justo.

Mas, infelizmente, as coisas não acabam por aí.

Em pesquisa publicada no mês de junho do ano passado, pela revista Você S/A, atualmente na editora Abril, sobre as 25 empresas mais desejadas pelos estudantes de engenharia, aparecem no topo da lista, empresas presentes no ‘olho do furacão’ por conta de corrupção nos vários processos levantados pela operação Lava Jato. Se é fato, que não seja possível fazer generalizações sobre os colaboradores destas empresas, uma vez que em sua grande maioria se tratam de pessoas honestas que desenvolveram suas atividades de forma correta, o que pensar de jovens que têm como referência mais forte, talvez única, destas empresas o fato delas terem participado de forma vil do maior sistema de corrupção da história do mundo? Muito possivelmente, para boa parte destes jovens, a preocupação com a imagem e a associação com valores morais adequados acabam ganhando uma relevância difusa quando comparadas as cifras potenciais que podem ocupar os seus bolsos. Sinais dos tempos ou apenas um exagero?

Afinal, o que Fátima Bernardes, Tony Ramos, Roberto Carlos e estes jovens engenheiros têm em comum?

Em tempo...

  • O presidente da Shering do Brasil, Rainer Bitzer, foi demitido 2 meses depois da divulgação do escândalo;
  • Por volta de 200 mulheres e famílias foram indenizadas pela Schering do Brasil;
  • Em 2004, o STJ negou pedido de indenização de Maitê Proença contra Schering;
  • A Schering foi adquirida pelo Grupo Bayern em 2006.
  • No ano de 2010 o Grupo Bayern decidiu extinguir a marca Schering.
  • O Microvlar continua sendo um dos anticoncepcionais mais vendidos no país.
  • A atriz Maitê Proença jamais voltou a protagonizar uma campanha deste vulto.