Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Somos do tamanho das nossas atitudes

Em tempos de meninice, ainda em terras alencarinas, soava aos meus ouvidos com certa estranheza o nome da vizinha de minha vó. Ainda que possa parecer estranho que um neto de Dona Noelzinda possa se surpreender com isso, Greta não fazia parte das opções consideradas mais normais para o nome de uma pessoa.

Uma escancarada homenagem a sisuda e bela atriz sueca, Greta Garbo, que fez sucesso nos anos 1930, a Greta cearense, na verdade, se chamava Antoninha, nome que sequer era citado, talvez sequer lembrado por seus amigos mais próximos. Dona Greta tinha uma mulatice brejeira e um delicioso sotaque nordestino, que certamente a distanciava, e muito, de sua ídola de infância, de quem guardava surradas fotos em preto e branco impressas no jornal local, O Povo. Talvez por isso, buscara para si um pouco de uma maiores divas da história do cinema no mundo, que resolveu interromper a carreira no princípio da década de 1940 e se tornar quase reclusa até sua morte em 1990.

‘Greta Antoninha’ era sozinha no mundo e muito pouco se sabia sobre ela, a não ser pelo segredo guardado, com poucas chaves, por Seo Teodulo, o dono da budega à frente de sua casa. Semanalmente ele mandava deixar um balde cheio de manga rosa a seu pedido. Aos apreciadores da cheirosa fruta não é necessário dizer o quanto ela se torna mais saborosa quando chupada, em vez de comida em educados pedaços bem cortados.Também não é preciso dizer o quanto esta primitiva forma costumava fazer com que o rosto do glutão se tornasse amarelo, quase que inteiramente, com aquele inconfundível cheiro da afamada fruta. Pois era dessa forma que Dona Greta gostava de comê-la. Isto explicava a facilidade de identificar a sua chegada tão logo ela descia do ônibus em frente a igreja do Mondubim.

Confesso que não conseguia imaginar a cena de tão recatada e fina senhora se empanturrando com manga. Tal ato parecia exdruxulo e desconjuntado para Dona Greta. Não tardou para que a prova dos nove fosse feita. Convidada para um cafezinho amigo na casa de vovó, após comer um economico pedaço de bolo de nada acompanhado de uma acolhedora xícara de café com leite, eis que diante dela surge como se por encanto uma gentil travessa repleta de mangas, recém tiradas do pé por meu tio Evandro. Antes mesmo que desse tempo de minha vó tirar as frutas da mesa, afinal, segundo ela “manga com leite” poderia até matar, Dona Greta sacou uma delas e passou a chupa-la do modo mais intenso, ação sucedida por um acalentador sorriso de satisfação. Um mito vinha abaixo. Quase que de imediato, veio do fundo da sala, uma apócrifa afirmação “eita que a Antoninha deixou a Greta Garbo em casa”.

Desde então, jamais consegui ve-la da mesma forma. Mas confesso que passei a gostar mais dela. Tomar ciência de sua verdadeira dimensão a fez mais próxima de todos, afinal, somos do tamanho de nossas ações, menores ou maiores, e muitas vezes felizes por conta de nossas escolhas. De uma forma, ou de outra, no entanto, ainda que tentemos disfarçar, a nossa verdadeira face sempre assumirá seu lugar, e é com ela que mostraremos o que realmente somos. Pode tardar, mas não falha.

Dona Greta ainda vive.