Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Uma portuguesa que me deu a Gestão do Conhecimento

Com 5 anos de formado, em 1997, passei a atuar na gerência de engenharia de uma das maiores construtoras brasileiras, a Camargo Corrêa. Tinha como uma das missões implantar inovações em processos e equipamentos nos vários projetos que a empresa desenvolvia. Um grande desafio para aquele engenheiro elétrico que atuara, até então, apenas em uma empresa, a Itautec, empresa tecnológica do Grupo Itaú.

E o começo não foi nada fácil.

A primeira área com a qual passei a atuar foi a de produção de concreto, em dois projetos, um localizado na cidade catarinense de Piratuba, próximo a Chapecó, e outro em Tucuruí, no Pará, durante a construção das hidrelétricas de Machadinho e Tucuruí, esta em sua segunda fase. A falta de conhecimento técnico era uma grande barreira, mas não a maior, que era fazer com que as equipes de técnicos e engenheiros se envolvessem em prol da adoção de novos métodos de trabalho que vislumbrassem à organização, saltos significativos de qualidade e redução de custos.

Ainda que houvesse espaço para melhorias relevantes, é inegável afirmar que já havia boas práticas implantadas em cada um dos projetos, muitas delas baseadas nos conhecimentos impregnados nas cabeças dos experientes profissionais presentes em Santa Catarina e Pará. No entanto, a distância geográfica, naquele tempo, limitava a conversa entre eles, que se restringia aos raros momentos durante reuniões na sede da organização em São Paulo. Esta realidade prejudicava de forma consistente o compartilhamento das melhores práticas, bem como daquelas a serem evitadas, um grande risco técnico a qualquer organização que busca a excelência.

No que se tratava ao meu desafio então, este perrengue o tornava ainda maior, pois impedia a disseminação de práticas inovadoras junto aos vários projetos organizacionais. Em outras palavras, quando alguém promovia alguma ação inovadora, ela costumava ficar restrita ao projeto onde fora concebida. Confesso que passei a estudar muito sobre este problema bem como a conversar com vários colegas que pudessem me sugerir meios para avançar sobre este obstáculo. Até que a ajuda maior surgiu de uma fonte inesperada.

Ao passar por uma livraria em São Paulo, me deparei com um convite, fixado na parede, para uma palestra com a bibliotecária Carminda Nogueira de Castro Ferreira. Dei uma olhada na sala e ao dar meia volta para ir embora me deparei com uma senhorinha portuguesa muito simpática, que se dirigiu a mim e falou: “que bom que você veio... já vamos começar.” Ainda que ela sequer me conhecesse, o gentil convite fez com que fosse impossível deixar de ouvi-la. Uma oportunidade única que mudou minha vida profissional. Durante pouco mais de uma hora, aquela octagenária senhora falou sobre práticas de compartilhamento de conhecimentos, tácitos e explicitos, gestão de informação e outros temas que se resumiam a um maior, que naquele tempo, ganhara o nome de gestão do conhecimento. O meu problema estava resolvido.

Aquela palestra me presenteou com o primeiro passo em busca de estudar este tema. Foram quase 10 anos entre mestrado e doutorado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, vários livros escritos sobre o tema e a implantação do projeto de gestão do conhecimento na Camargo Corrêa, a primeira entre as grandes empresas brasileiras a adotar esta prática, e durante anos, a única. Ganhei muito mais que isso. Este assunto passou a ser o tema dos trabalhos que desenvolvo em tantas organizações e que tanto defendo e acredito, verdadeiramente, até hoje, em minhas atividades profissionais.

Anos depois, pude falar isso para ela, na segunda, e derradeira, vez com que me encontrei com ela. Dona Carminda, um dos maiores nomes da história da biblioteconomia no Brasil e que teve 8, dos 11 filhos, trabalhando como bibliotecários, foi chamada para o andar de cima de cima em 2010, aos 89 anos.