Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Vaga na garagem da empresa não é bem adquirido, mas pode dizer muito.

Em tempos de vacas magras, na verdade, mesmo quando mais gordas, “tudo é tudo e nada é nada”, como diria Tim Maia.

Ainda me lembro quando, durante os primeiros anos de atuação em certa empresa, estacionava meu carro na rua. Naquele tempo, e olha que já faz mais de década, não havia tantos estacionamentos próximos, e ainda que houvesse, cá entre nós, não sei ao certo se toparia pagar um valor para deixar o meu carro em um lugar mais seguro.

Foram alguns anos nesta rotina até que depois de dois rádios, um guia de São Paulo, quem lembra sabe o quanto era caro um deles, e um estepe, todos roubados, enfim conquistei a promoção de ter uma vaga na garagem interna da empresa. Sim, assim que era vista a possibilidade de estacionar o carro dentro de seus muros.

Incrível imaginar que muito mais que a real possibilidade de não ter mais itens subtraídos, ‘ganhar a vaga’ foi recebido como um presente, ainda que fosse sinal de retribuição aos bons serviços prestados. Anos depois, eis que me deparo com situação similar, desta vez, no entanto, apenas como ouvinte.

Atuando em uma empresa que tem tomado medidas para redução de custos, testemunhei uma senhora comentar com outro colega que sua vaga na garagem passaria a ser rotativa, isto é, compartilhada com demais colegas de trabalho, que já revezam seus locais de trabalho em virtude da adoção do modelo home office.

Em termos práticos, na verdade, a medida não faria qualquer mudança em seu dia a dia. Explico. Ela própria afirmara que não costumava usar vaga, uma vez que sequer utilizava o carro para ir ao trabalho. Pois é, qual o problema então?

Certamente, talvez não tenha sido a necessidade de, eventualmente, ter que gastar alguns trocados quando vier a ter que parar o carro em um dos estacionamentos pagos próximos ao local de trabalho, R$ 14,00 por 12 horas, mas muito possivelmente por algo, considerado, tacitamente, muito mais relevante.

Assim como anos atrás, eu senti quando ganhei uma vaga, a sua perda, ainda que ela tenha se tornado compartilhada, sinaliza a impressão de perda de prestígio, uma vez que não importa, sequer se você a usa ou não, ela já tinha se transformado em um benefício adquirido e por conta disso algo já inserido no seu  pacote de funcionário, do qual faz parte o salário, plano de saúde e outros ‘que tais’.

Ainda que estejamos vivendo em tempo de pseuda preocupação por parte de alguns de nossos governantes que, na verdade, poucos fazem para adotar medidas efetivas em prol da criação de alternativas reais ao uso do veículo, seria salutar que, alguém que não usa algo, não se aborreça por não tê-lo mais em disponibilidade. Talvez soe mais que óbvio mesmo, ainda que pareça haver tanta coisa por trás disso.

Mais que uma questão de cidadania, algo que parece estar chafurdado apenas em dicionários escolares, ao que tudo indica apenas uma simples questão de bom senso, ainda mais raro neste nosso dia a dia em que o senso do eu supera em anos luz o foco no interesse coletivo. Por fim, de antemão, sinalizo, não sou socialista.