Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A Maria-fumaça de 1879

Sen-sa-ci-o-nal... Alguns poderiam dizer que o passeio “foi bom”. Outros diriam, “ótimo”. Digo que foi es-pe-ta-cu-lar! Não andava de trem desde os anos 70, quando fiz algumas pequenas viagens até cidades próximas de Presidente Venceslau, ainda criança. Há poucos dias, entretanto, a saudade foi aplacada pela visita à cidade de Paraguaçu Paulista; “uma região hoje resgatada pela cultura com a catira, o teatro, a música raiz, o artesanato, a culinária e a Folia de Reis, que refletem novos horizontes ao apito da velha locomotiva a envolver todos os ‘Josés e Marias’ com a sua fumaça pelos trilhos da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, levando os felizes passageiros do ‘Trem Turístico Moita Bonita’”, conforme informações que vem do site oficial daquele município. 

Por iniciativa da Academia Venceslauense de Letras, AVL, um grupo de ex-ferroviários e diversos acadêmicos do município puderam conhecer uma autêntica maria-fumaça fabricada na Inglaterra há 134 anos, ainda em perfeito funcionamento. Paraguaçu está a, aproximadamente, 150 km de Venceslau. Por isso, saímos cedo, exatamente às 6,39 h da manhã, da sede da academia venceslauense e chegamos por lá às 8,50 h. Dez minutos depois estávamos na plataforma da estação, embarcando no trem cuja locomotiva enfeitada com quatro bandeiras, é de número 23.  

De acordo com o amigo e acadêmico da AVL, José Carlos Daltozo, profundo conhecedor e divulgador da história ferroviária, com diversos livros publicados sobre o assunto, “a locomotiva que faz o passeio é chamada de Dona Lina, porque foi doada pelos herdeiros da família José Giorgi, construtores da ferrovia de Assis a Presidente Epitácio e antigos donos da Usina Santa Lina, em Quatá. A pequena locomotiva puxava cana dos canaviais para a usina. Desativada, ficou muitos anos ao relento, até ser doada à Prefeitura de Paraguaçu e restaurada para esse passeio turístico.”

A recepção que nós tivemos foi incrível. Assim que chegamos, fomos recebidos cordialmente pelos responsáveis pelo trem, já que tudo havia sido agendado, que nos passaram os bilhetes já com os devidos nomes de todos os passageiros. Um grande número de crianças esteve na viagem! Um dos vagões estava reservado para os turistas de Presidente Venceslau e o outro para os japoneses do Clube Okinawa, de Presidente Prudente, que chegaram por lá em grandes e potentes motocicletas importadas, promovendo uma atração extra ao passeio. 

Saímos em direção ao Distrito de Sapezal – lugarejo com apenas 176 habitantes -, onde, antigamente, moraram as famosas cantoras sertanejas Irmãs Galvão. Percorremos a distância de 12 km, com quatro paradas durante o trajeto. A mais interessante é a da Estância Menino da Tábua, onde há uma extensa plataforma, cercada por pequeno bosque e com bonitas estátuas brancas, onde os passageiros puderam descer e tirar dezenas de fotos. Aproveitei para conversar dentro da locomotiva por um bom tempo com o mecânico e maquinista “Seo Abelardo”, um solícito e simpático ancião que me mostrou como funciona a caldeira e os diversos equipamentos da maria-fumaça. O detalhe: durante todo o trajeto, por uma estrada paralela, somos acompanhados por um carro-pipa dos bombeiros, para qualquer eventualidade. A viagem de ida dura quase uma hora e meia com muita música, diversão com interação e informação, passada em microfone sem fio, que percorre todos os vagões. Tudo de maneira bem alegre e festiva! 

O ponto alto, incrível, inesquecível e emocionante do passeio: a visita à Igreja Santo Antonio, construída no vilarejo de Sapezal em 1932. Ali, um grupo de sopro e jogral de Paraguaçu composto por crianças iniciou apresentação com um moroso, real e impactante apito de trem feito com os próprios instrumentos musicais. Depois, foi narrado o suplício do Mestre Jesus de uma forma única, profunda e transcendental até o Calvário, tudo “por míseras 30 moedas de prata”. A narração levou as pessoas presentes ao silêncio pleno e extraordinário. Mag-ní-fi-co...