Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A bicicleta do papai

Por estes dias, toda nossa família se reuniu em torno dos meus pais, Paulo e Carmelita. Ambos completaram 50 anos de casamento. As Bodas Especiais de Ouro! A confraternização aconteceu numa tarde de domingo, no Salão de Festas da P1, com a presença de velhos amigos. Percebi que o tempo passou para aquele casal e para nós, também. Notei o grande número de automóveis estacionados próximo ao local. Recordei-me que nem sempre foi assim. O primeiro e grande meio de transporte deste grupo social foi a bicicleta, sempre movida pelo “arroz e feijão”. Rsss... A origem da família foi sobre duas rodas.

Na chamada “cadeirinha”, feita com acento em madeira almofadada e ganchos de metal, colocada na parte de frente no guidão aos quatro anos, tive os meus primeiros passeios. Havia nela um lugar para colocar os pezinhos e a gente ia, gostoso, dar algumas “voltas” por Presidente Venceslau. Recordo-me até da marca desta bicicleta: Monark. A legítima, com um logotipo brilhante: uma bonita coroa de rei bem na parte da frente. 

Um pouco mais tarde, ainda bem franzino, aos seis ou sete anos, foi neste veículo de meu pai que aprendi a “andar de bicicleta”. E de maneira bem peculiar! Imagine aí como eu fazia... Começava passando a perna direita por dentro do quadro. Era muito engraçado já que a bicicleta, que era grande, alta e pesada para minha idade, ficava meio inclinada, com o meu corpo servindo de contrapeso para dar o equilíbrio quando eu montava. Tomei cada tombo... O que mais me chamava a atenção na bicicleta de papai era uma “inovação” para a época; o sistema de freio tinha um nome bem bacana: “breque de pé”. Bastava retroceder os pedais, movimentando a catraca ao contrário, e ela iniciava o processo de diminuição da velocidade e parada. Quando feito de modo bem firme e forte, o pneu deixava marcas no solo. Ah... Como eu gostava de ver aquilo... 

Saia para tudo quanto é canto de Venceslau, de bicicleta. Lá, onde hoje é a Prefeitura Municipal de Presidente Venceslau, era um enorme mercado onde se vendiam frutas, legumes e peixes até meados dos anos 70. Mamãe pedia para que eu fosse comprar algumas coisas e eu ia todo feliz. Trazia tudo com uma sacola presa no guidão e mais um pouquinho de mantimentos, na chamada “rabeira da bicicleta”. Naquele tempo, meu pai saía para o centro da cidade e quando voltava, por vezes, trazia um ou dois franguinhos amarrados pelos pés pendurados no guidão, para o almoço de domingo. Rsss...   

Tinha vez que, eu e meu irmão, íamos juntos com as “magrelas”, tomar banho nos córregos próximos à cidade, que na época ainda não eram poluídos. Quase sempre nós íamos ao Córrego da Matinha, que existe até hoje paralelo à Rodovia da Integração. Às vezes, íamos até tomar banho na lendária e inesquecível Cachoeirinha, um riacho próximo ao trevo do antigo Frigorífico Kaiowa. Quando estávamos dispostos mesmo, a grande aventura era - de bicicleta! -, ir tomar banho lá no córrego do Bairro Aimoré, bem perto da ponte. Ou ir, margeando a linha férrea até cidades próximas como Piquerobi ou Caiuá. Meu pai e meus tios já foram até Marabá Paulista e voltaram de bicicleta. Não é legal?! E você? Seu pai ainda é vivo? Já passeou com ele de bike? 

Na semana passada, tive o prazer de assistir a um filme cujo título é o mesmo desta crônica. É uma produção maravilhosa feita na Polônia em 2012, que retrata um conflito de convivência entre três gerações: avô, pai e filho. O ponto central do drama é um acontecimento envolvendo uma bicicleta. Em determinado momento do filme o neto pergunta: “Vovô, você tem medo da morte?” A resposta é uma lição inesquecível: “Não!”, diz o idoso, que complementa: “Eu tenho medo de não poder ir ao banheiro sozinho algum dia!” Eu penso assim, também...