Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A briga entre os noivos e o padre

O caso que vou relembrar hoje não aconteceu em Presidente Venceslau, porém, foi testemunhado por pessoas daqui. No dia 22 de março de 1953 foi publicada uma longa narrativa no jornal “A Tribuna”, que se fosse medida hoje, talvez desse algo em torno de três - ou mais! - laudas em folha de papel sulfite. Diria que é um conto! Foi divulgado em letras bem pequenas. Refere-se a um fato presenciado pelo colunista J.R. Pires. As siglas, - expostas nesta seqüência numa espécie de pseudônimo já que estão invertidas do nome original - são na realidade de Fructuoso José Pires. A elucidação do seu autor se originou de felicitações ao “distinto aniversariante Fructuoso”, publicadas no mesmo informativo no dia 13 de dezembro de 1953. O que você está lendo é a síntese da estranha passagem.  

Mas, o que tem de especial esse depoimento? Quem leu na época, com certeza, apreciou uma história e tanto. Nos primeiros dias daquele ano, Fructuoso Pires foi à cidade de São Paulo e de lá “pela segunda vez” foi visitar a Basílica de Nossa Senhora da Aparecida do Norte (hoje Aparecida!), e constatou a presença de grande número de romeiros, “mesmo sendo um dia de semana”. Fructuoso havia chegado de manhã e o ônibus de retorno só sairia de lá às 16 h. 

Por volta das duas da tarde, chegou um comboio de carros, trazendo os componentes de um casamento. Os convidados e o noivo foram os primeiros a entrar na igreja. Fructuoso estranhou, porém, as vestes da noiva. Talvez, para época, não combinasse muito com a cerimônia! Quem sabe seria algo do tipo “moderno” demais. A noiva não se vestia de branco. Trajava um talleur (pronuncia-se talher), um conjunto feminino de saia e paletó pretos, carregando um buquê com flores de botões de laranjeiras artificiais. Imagine você: uma roupa completamente fora do padrão do que se conhecia até então para uma celebração destas. A pretendente aparentava um pouco mais de 30 anos, de corpo e altura regulares; de pele bem tratada. O futuro marido parecia bem mais jovem que a noiva. Talvez 25 anos! Entrou e foi diretamente para o altar-mor. Esperou.  

Sem grinalda, sem música de qualquer espécie, a noiva adentrou ao recinto acompanhada por um senhor calvo aparentando 65 anos, provavelmente o pai. Frente ao sacerdote o belo par ajoelhou-se no genuflexório coberto com um riquíssimo tapete grená. Em poucas palavras proferidas pelo padre, ambos se dirigiram ao confessionário, colocado do lado direito de quem entra na basílica. Como todos os pecadores, depois de uns dez minutos avantajados, o noivo levantou-se, dirigiu-se para os bancos onde estavam os parentes. Chegou a vez da noiva. Passados talvez cinco minutos, a linda noiva saiu a passos largos dos pés do confessor, dirigindo-se para onde estavam os convidados. Até aí, parecia tudo normal. No entanto, para surpresa geral, o vigário abriu rapidamente a porta do confessionário, largou a estola e chamou muito delicadamente a noiva, ao que respondeu em alta voz e com toda a arrogância: “Não me interessa... Não me interessa!” O padre, com acentuado sotaque saxão, depois de insistir duas ou três vezes, voltou calmamente ao confessionário, apanhou a estola que havia deixado na porta do mesmo e dirigiu-se para a sacristia do templo. Saiu. Simplesmente, abandonou o altar. 

A certa distância, segurado pelos convidados, o noivo irado falava e gesticulava fazendo menção de que agrediria o padre. Depois, saíram por uma porta lateral. A noiva chorava muito! Foram para um seminário ao lado. Fructuoso Pires, que acompanhava tudo, saiu pela frente onde se deparou com uma dúzia de fotógrafos imóveis. Do seminário, os convidados, um novo padre e os noivos voltaram onde retomaram o casamento, pela segunda vez passando pelo confessionário. De lá, a noiva levantou-se ainda indecisa, correu os olhos por toda basílica vertendo lágrimas. A igreja estava lotada ao final da celebração, agora com muitos curiosos. O matrimônio transcorreu neste clima. O que teria acontecido? Depois de mais de 60 anos do episódio, é difícil saber...