Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

A queda de um teco-teco no interior

Uma das narrativas do passado que mais chamam atenção diz respeito a um acidente aéreo, um dos primeiros da região de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Mesmo sem aeródromo ou aeroporto, o fato se deu no município vizinho de Caiuá e envolveu na época, o fazendeiro e ex-candidato a prefeito daquela cidade, Élio Gomes. Diz-se que um bom líder tem que ser amado e odiado ao mesmo tempo pelo povo. Elio talvez foi um destes grandes políticos com tais características. Estes relatos poderão dar uma noção disso.

A notícia do acidente foi destaque de primeira página do jornal A Tribuna, que já não circula mais por Presidente Venceslau. Foi estampada no dia 25 de setembro de 1960. Na tarde de 17 de setembro daquele ano, por volta das 18 horas, ocorreu no município de Caiuá, grave desastre aviatório quando um teco-teco, de prefixo ignorado, pilotado por Élio Gomes, proprietário do aparelho, após chocar-se com um poste telegráfico da E. F. Sorocabana, precipitou-se sobre uma casa residencial, incendiando-a. Na queda, o aparelho matou Dona Olinda Parente Pereira, esposa do sub-chefe da estação ferroviária local.

Segundo dados extraídos do inquérito policial, Élio Gomes, ao regressar de uma viagem empreendida à Capital, antes de aterrissar no campo de aviação de sua fazenda, localizado nas proximidades da cidade, fez algumas acrobacias e vôos rasantes, quasi atingindo a torre da igreja. Ao tentar um looping, o avião se desgovernou, chocando-se contra a residência de Arlindo Soares Costa, localizada no pátio ferroviário. Na queda, uma das rodas do trem de aterrissagem colheu Olinda Parente Pereira, que se encontrava no terreiro da casa, esmagando-lhe a cabeça.

O sogro de Élio Gomes e um militar, que se encontravam nas imediações, acudiram em tempo, conseguindo arrancar do aparelho o aviador. Este, desfalecido, apresentando fraturas em diversas costelas, tornoselo e queimaduras generalizadas pelo corpo, foi transportado para um hospital de Presidente Venceslau, ficando internado. Ao que consta, a família de Arlindo Soares Costa, por felicidade, não se encontrava no momento no interior da casa, mas no quintal. O fogo, com a explosão do aparelho, queimou totalmente a casa, causando prejuízos avaliados no inquérito. O Dr. Fausto Madureira Pará, Delegado de Polícia, em companhia de soldados dos destacamentos venceslauense e epitaciano, acudiram com rapidez ao acidente, trabalhando grande parte da noite a fim de evitar a propagação do incêndio e removendo os destroços do aparelho sinistrado.

O corpo de Olinda Parente Pereira, após autópsia, foi removido para a cidade de Itatinga, onde se procedeu o sepultamento. Élio Gomes foi autuado em flagrante delito pela autoridade policial, que denegou naquela repartição o pedido de fiança formulado pelo advogado encarregado de sua defesa. Foi também aberto inquérito pelo Departamento de Aeronáutica Civil. Até bem pouco tempo, o poste telegráfico atingido e envergado pelo impacto do avião de Elio Gomes, podia ser visto às margens da linha férrea.

A vida de uma pessoa, seja ela humilde cidadã ou já de evidência na sociedade, às vezes é marcada de forma indelével. Consta também na primeira página do jornal A Tribuna, um ano antes deste fato, outro episódio inusitado envolvendo Élio Gomes. Foi em 20 de novembro de 1959. Por volta das 10,30 h daquele dia, Élio Gomes sacou um revólver e desfechou um tiro no farmacêutico Sr. Antonio Werneck da Cunha, provocando com o seu gesto pânico no local. Élio, que cobrava de Antonio comentários injuriosos e desabonadores a respeito de sua esposa, após atirar se pôs em fuga, homiziando-se na Fazenda Vista Alegre, onde foi preso por uma caravana policial que seguiu de Presidente Venceslau, chefiada pelo Delegado de Polícia deste município, Dr. Renato D Andrea.