Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Igreja ou rodoviária?

Ela tinha 90 anos e havia se tornado protestante na velhice. O colunista da Folha de São Paulo, escritor, médico e psicanalista Francisco Daudt ficou intrigado com essa senhora e quis saber “como?”; por que ela mudou quase no fim de sua jornada terrena? A mulher respondeu: “É que você acha que pode aceitar umas coisas ditas por Roma e rejeitar outras. Ora, meu filho, ninguém fica criança para sempre, e se a velhice tem alguma vantagem, é que a gente perde o medo.” Independente da religião a qual pertençamos, tudo que o homem faz é no sentido de troca. O que eu vou ganhar com isso? Nem a igreja foge a essa verdade. 

Infelizmente, parte considerável dos “cristãos” ainda não sabe por que precisa freqüentar as igrejas. Lembro que nos fins de tarde da vida moderna, do capitalismo, as pessoas “necessitam diariamente” comparecer aos supermercados. No entanto, no começo da noite, dispensam a presença na igreja. Será que os sermões já não atendem mais às necessidades espirituais? Ouvi esta semana que em determinadas igrejas o sujeito só fica, só permanece, se lavar os banheiros dos templos. Não é mais coerente exigir que se lave a alma? O que tem causado estas coisas? Perda de fé, cegueira interior, tristeza ou apenas “falta” de tempo? 

Aqui entra uma tentativa de explicação. Na minha infância, o jovem tinha funções. Hoje, nem tanto! Com oito anos, recordo-me que tinha que “tirar água” do poço para o pessoal de casa beber e tomar banho. Às vezes, tinha que ajudar minha mãe a torrar o café que seria consumido na semana ou ajudá-la fazer sabão num tacho fervente no fundo do quintal. Vovó lavava as roupas num pranchão chamado “batedor” onde, ao lado, havia uma tina com água. Nós, ainda crianças, tínhamos que ajudá-la a estender a roupa numa cerca de arames ou espalhar para quarar numa grama em frente de casa. Outras vezes, buscava lenha numa serraria para acender o fogão, lá perto do campo da Mariana, próximo à garagem da Prefeitura de Venceslau, onde agora há uma creche bem bonita. À tarde tinha que debulhar espigas de milho para as galinhas do terreiro. 

Naquela época, ainda havia espaço para a solidariedade. A vizinhança era unida! Quando alguém matava um porco, distribuía graciosamente um quilo de carne aqui e outro ali. A gente cortava em bifes, temperava, e colocava na chapa quente do fogão à lenha. Ficava uma delícia! Perto de casa morava um carroceiro. Várias vezes eu ia “buscar o petiço no pasto para armar a carroça para ele ir trabalhar”. Se alguém, um vizinho ou parente adoecesse, nós tínhamos que cuidar. 

Assim era a vida. Tudo exigia tempo! As coisas precisavam ser preparadas. Hoje, a hora ganha com a rapidez do computador e do celular é, em grande parte, desperdiçada com vadiagem, desculpe a franqueza. Sobrou espaço para se “alimentar” com o que não presta e abandonar os templos e a Palavra de Deus. Sei que não é fácil aceitar essas colocações. Entendo que não é agradável ler aqui que, assim, as igrejas se tornaram apenas uma rodoviária ou aeroporto, onde as pessoas passam, mas não permanecem. Se ali vão, estão constantemente apreensivas como se fossem cumprir um ritual. Uma hipocrisia! Alguns, quando comparecem a estes locais, ficam o tempo todo olhando para o relógio e fazendo cara feia. Isso é uma vergonha! Ou, simplesmente querem uma solução rápida para os seus problemas. Pouco se interessam pelo Criador. 

Há uma multidão nas igrejas de hoje se emocionando com shows, músicas, teatros e com a teologia da prosperidade, pouco se importando em abandonar os erros. As pessoas estão felizes com as bênçãos que recebem e não com quem as deu. Não quero invadir a religiosidade de ninguém. No entanto, a base aqui é mesmo a Bíblia e a sua Verdade. Nela, a narrativa de que uma multidão prendeu o Mestre e optou pela liberdade de Barrabás. Naquela multidão de pessoas estava alguns que o Mestre curou, libertou e alimentou. Pessoas como nós...