Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O crime no campo de futebol

 É sabido pelos leitores que estou lendo um calhamaço com os antigos exemplares do jornal "A Tribuna", que circulou aqui em meados do século passado. Talvez seja o único documento que ainda exista e que registrou os principais acontecimentos de Presidente Venceslau naquele período. Como se tratava de um informativo, nem todos os fatos são agradáveis de serem relembrados, porém fizeram parte da vida da cidade. Não podemos negar isso! O que tenho feito é resgatar a curiosidade que envolve estes episódios e a profunda repercussão que tiveram e ainda têm junto a comunidade venceslauense. Antes de, precipitadamente, se pensar que se trate de desrespeito a quem quer que  seja ou aos familiares dos protagonistas, a notícia é uma base histórica de Presidente Venceslau eternizada na memória do povo.

Em especial, o que relato aqui hoje tem a ver com o chamado "futebol de várzea". Aquele cujos gramados da periferia eram cercados por pranchões de madeira. Onde  pessoas bem humildes, por vezes, não tinham acesso em dias de jogos, pois não havia dinheiro nem para pagar a entrada para ver as partidas. Esses cidadãos usavam suas bicicletas para se pendurar e se apoiar nas cercas, buscando de alguma forma, ver os lances dos jogos.

Em Presidente Venceslau, há exatos 57 anos, uma disputa futebolística marcou a população. Meu pai, na época, viu como tudo aconteceu. Quando eu era criança, ele falava sobre isso e eu ansiava por detalhes! Em conversas informais de antigos moradores, as lembranças sobre o caso sempre aparecem. Desta forma, nestes jornais antigos já procurava algo a respeito. Tanto que, há mais de dois anos, lia perseverando detalhadamente entre as páginas, na sincera esperança de encontrá-lo. Não omitirei os nomes envolvidos já que a matéria foi publicada na capa do jornal, no dia 20 de abril de 1958. O crime ocorreu uma semana antes, num domingo à tarde, por volta das 18 h, no dia 13 de abril.  

No improvisado campo de futebol localizado nas proximidades da antiga Serraria Lameirão, registrou-se a lamentável ocorrência policial que repercutiu entre os munícipes. Naquele fim de dia jogavam uma partida de futebol, as equipes da Vila Jardim e outra  constituída por operários ocupados nas obras de construção da Penitenciária 1. Segundo consta do Boletim de Ocorrência, em dado momento, por motivos de arbitragem, surge entre torcedores uma séria desinteligência, no decorrer da qual o indivíduo José Moreira dos Santos, natural do Estado de Alagoas, usando a "peixeira" que portava, feriu gravemente a Arlindo Braga, assistente, e, depois, a Benedito Braga, jogador, que viera em socorro a seu irmão. Benedito, que recebeu uma facada profunda na região superior de uma das pernas, faleceu no local. O Sr. Arlindo, também ferido numa das pernas, foi levado em estado grave ao Hospital N. S Aparecida.

O assassino, José Moreira dos Santos, se encontrava em Presidente Venceslau, tendo vindo de São Caetano do Sul para trabalhar nas obras da Penitenciária 1, hoje com o nome do saudoso advogado Zwinglio Ferreira. José Moreira, após o crime "homiziou-se numa residência próxima, ali sendo posteriormente preso pela polícia e recolhido à cadeia local." O jornal informou ainda que as vítimas, Arlindo e Benedito Braga pertencem a numerosa família há muitos anos radicada em nosso município. Moços sempre dedicados e esportistas merecedores da estima de seus colegas, razão porque o fato provocou indignação e revolta geral na cidade."

A notícia também esclarece que "o Sr. Benedito Braga, que contava com 28 anos de idade, foi sepultado no dia seguinte, na segunda-feira, dia 14, com grande acompanhamento. Benedito deixou, viúva, a D. Isabel Braga e os dois filhos menores: Jurandyr e Wilson Braga."