Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

O plano para matar um vereador

 A vida de um homem não pertence ao seu semelhante. Pertence a Deus, exclusivamente. Somos cristãos e não acreditamos de forma alguma em expedientes desta natureza. Em virtude da fé, estamos imunes a estes males. Ademais, não tememos a morte porque um dia ela há de chegar. Não somos valentes, mas também não somos covardes... A posição expressa neste parágrafo foi escrita pelo Dr. Zwinglio Ferreira (foto), no editorial de capa do jornal “A Tribuna”, que circulou em Presidente Venceslau no dia 14 de março de 1954. Embora um fato desta natureza seja um capítulo desagradável na vida da cidade, não poderia me omitir em relembrá-lo aqui, neste espaço, devido a grande repercussão que o caso teve. Isso não desmerece o município. Muito pelo contrário! Coloca-o em situação idêntica a muitas outros. Meu objetivo com a divulgação não é afligir a quem quer que seja. Com maturidade, vamos relembrar o que houve e apenas isso.     

As considerações do Dr. Zwinglio no jornal - que também era vereador na época - surgiram em virtude da prisão de um malandro, que resultou na descoberta de um plano sinistro. A Delegacia Regional de Presidente Prudente prendeu no centro daquela cidade em março de 54, o indivíduo Francisco Xavier de Lima e, após a revista de praxe, encontrou em um dos seus bolsos uma carta procedente da cidade de Cachoeira, Estado da Bahia. A missiva era assinada por Adálio Assis de Morais, que se dizia colega, companheiro do referido Francisco Xavier de Lima. Após a leitura daquele documento, inteirou-se a polícia de que estava de posse de uma chave para desvendar um plano entabulado em Venceslau, entre os referidos indivíduos e o Sr. Enio (resguardo o nome familiar), que visava eliminar o Dr. Zwinglio Ferreira.

Em face da gravidade do assunto, o delegado Regional de Polícia enviou o preso para cá. Como medida preliminar, a autoridade policial local solicitou ao gabinete de investigações dados referentes à vida pregressa do indivíduo Francisco Xavier de Lima. Havia um pedido de prisão contra “o indigitado malandro” que deveria estar cumprindo pena de dois anos e meio de reclusão por falcatruas feitas na Bahia.

Adálio, o autor da carta, estivera dias antes aqui na cidade e se apresentava como advogado. Ele “recomendava ao destinatário, seu cúmplice, que retornasse para Presidente Venceslau e comunicasse ao Sr. Enio que o ‘o primeiro serviço’ encomendado não dera resultado, porque só agora, chegando à Bahia, se certificara de que o insucesso fora devido ao próprio interessado na macumba que dera o nome do homem errado – Jesuíno Ferreira – quando na realidade era Zwinglio Ferreira. Depois de recomendar ao seu comparsa novamente a execução do ‘serviço’ e a maneira como cumpri-lo, Adálio solicitara do Sr. Enio o pagamento do restante da importância combinada, ou seja, 20 mil cruzeiros. Para que Francisco Xavier obtivesse êxito real na macumba, Adálio avisava que estava enviando os ‘ingredientes’, consistindo em ‘maconha, pó de atá, azougue e outros que deveriam ser misturados com uma porcentagem de ‘pó de caveira’, confeccionado com três ebós, os quais deveriam ser jogados na residência do ‘homem’, outro no seu escritório e o último na via pública acompanhado de gritos do ‘nome do homem’. No final, diz Adálio, o homem morrerá e os ‘galhos’ que surgirem após a sua morte, serão quebrados por mim aqui da Bahia com ‘outro serviço’ especial”.

O episódio recontado hoje repercutiu em outros rincões. O Diário da cidade de Itapetininga relatou o ocorrido na época em suas páginas. O editorial “Macumba para um”, datado de 04 de abril de 1954 no jornal “A Tribuna”, esclarece isso. De lá, a notícia chegou à outra organização impressa de nome “Lux Jornal”, com sede no Rio de Janeiro. Depois, foi repassada a todas as filiais desta organização jornalística em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Consta também que no início de junho de 1957 o Dr. Zwinglio escapou da morte por um triz num desastre. O jeep no qual trafegava foi colhido por um trem na Passagem de Nível da travessa Tenente Osvaldo Barbosa, ficando totalmente destruído; ele conseguiu pular do veículo e nada sofreu. O Dr. Zwinglio Ferreira faleceu idoso, no dia 24 de agosto de 2004, de falência múltipla dos órgãos ocasionada por uma pneumonia.