Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Um cantor americano no interior

Em Presidente Venceslau, quando a gente fala em show musical, lembramos da FAIVE, a maior feira e festa da cidade. É nela, hoje, que cantores de renome se apresentam por aqui. Porém, houve um tempo, nas décadas passadas, em que o circo tinha o mesmo papel; trazia conhecidas duplas sertanejas, que além de cantarem, interpretavam como nos teatros os inesquecíveis “dramas” que arrebanhavam multidões, à noite, principalmente aos antigos terrenos da Esplanada, próximos a Rua Tenente Osvaldo Barbosa, para assistir aos espetáculos. Porém, nas noites de 12 e 14 de março de 1953, a cidade recebeu um cantor especial vindo dos Estados Unidos. Seu nome: Bob Barlow. 

Mas, quem era afinal este músico? O jornal venceslauense “A Tribuna” nos conta que ele não era desconhecido do público. Consta que fez várias apresentações no interior de São Paulo e, até em alguns outros Estados do Brasil. Sua voz melodiosa foi apreciada no filme “Escola de Sereias”. Foi destaque na Orquestra de Tommy Dorsey, excursionando pela Europa. Segundo o semanário da cidade, Barlow “era um cantor americano do estofo de Carlos Ramirez, o mesmo Ramirez da Escola de Sereias e que possuía a voz bem próxima de Bing Crosby.” Ainda de acordo com o jornal, Barlow também percorreu os países sul-americanos. Vencera o concurso musical da Colúmbia System, um dos mais famosos do mundo, na época. 

Os redatores do jornal afirmaram que Barlow esteve também nos palcos da “Broadwy” (!), ao lado de Henry James, Frank Sinatra, Doris Day e outros. No Brasil, “no seu gênero musical interpretando fox, boleros e blues, Bob Barlow era único e absoluto.” Com toda essa bagagem artística, na primeira reportagem publicada no jornal venceslauense, foi anunciado que na quarta-feira, dia 11, Barlow cantaria no Salão de Festas do Clube Recreativo – atual Venceslau Hotel – em benefício do “Abrigo de Velhos Esperança”. Essa apresentação não se concretizou. Pelo menos não há qualquer referência a respeito... 

No dia 15 de março de 1953, os relatos impressos foram de grande entusiasmo. Atestam que “os dois shows foram sensacionais, com diversas músicas de seu seleto repertório.” Barlow foi grandemente aplaudido! De “lambuja” cantou ainda duas músicas carnavalescas: “General da banda” e “Cachaça”. Esta última, traduzida para o inglês, somente a palavra “cachaça” não encontrou correspondente na língua falada nos Estados Unidos, “pelo que o público, sempre que ouvia intercalada na pronúncia inglesa de Bob Barlow, ria gostosamente”. 

Por um convite do artista, falou por ocasião do espetáculo de quinta-feira, o Prefeito Municipal, Sr. Pedro Augusto Oberlaender que, em rápidas e elegantes palavras, explicou ao povo o motivo da cooperação da Prefeitura para aquela festa, “de vez que o trabalhador, que não pode pagar para assistir espetáculos dessa natureza, teria, com esse show em praça pública, uma oportunidade para deleitar-se ouvindo artistas de qualidade e valor como Bob Barlow.” 

Maaaasss... Sempre tem um “mas”... Dadas às dificuldades da época, questionei a mim mesmo agora o que estaria por trás da visita de uma pessoa com tantos predicados musicais neste fim de mundo, já que a comunicação aqui era lenta, precária naquele tempo? Um sujeito que até cantou com Sinatra!? Ai... Ai... Ai... Ai... Ai...  A resposta veio pelo historiador e professor Francisco Rolfsen Belda, de Araraquara. Na década de 50, Barlow passou por lá e arrancou suspiros e gritos das garotas. “Após os autógrafos, elogios e reverências de praxe, Barlow deixou a cidade sob saudações, levando na bagagem um bom cachê e, provavelmente, alguns lenços com perfume de moças araraquarenses que assistiram ao espetáculo na ‘boca do palco’, encantadas pela voz do cantor. Apenas uma semana depois foi que souberam pela imprensa da capital de sua prisão em Campinas, por estelionato e falsidade ideológica. O sujeito, brasileiríssimo, era, na verdade, de Mogi Mirim. Se não fosse desmascarado, seguiria turnê pelo país. Afinal, como até hoje se comenta em Araraquara, cantava bem mesmo o vigarista!” Em Venceslau, idem...