Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Uma Caminhada de Surpresas!

Pelo menos uma ou duas vezes por ano, me dedico a uma grande caminhada. Vou até um município próximo a Presidente Venceslau de ônibus e retorno a pé. Os leitores sempre me pedem as narrativas de tais aventuras! Meu passeio predileto é ir até Caiuá e retornar, ora pela Linha Férrea, ora pela Estrada Vicinal. São 18 km sem trânsito, com muito verde e, com sorte, dá para prosear com pessoas humildes, ver pássaros diferentes e animais silvestres. Refiz esse trajeto no num sábado, dia 15 de fevereiro de 2014, e fiquei imensamente satisfeito e deslumbrado. A paisagem mudou bem! A ferrovia está desaparecendo no meio de um implacável matagal. 

Saí de Venceslau com o objetivo firme. Esperava ter uma oportunidade de andar parte do trajeto na escuridão da noite. Cheguei a Caiuá por volta das 17 h. Iniciei a viagem pela passagem de nível que demanda à Vila Sapo, onde tive a primeira surpresa. Encontrei o jovem casal Claudinei do Nascimento e Marli. Com um tablet, gravei uma entrevista com ambos pautada na simplicidade que é morar ali. Disseram que “não trocam Caiuá por nada!” Mais adiante, fiquei admirado: em cima da laje de uma construção que parecia ser um empório, dois cachorros latiam sem parar. Crianças, com bicicletas, brincavam e gritavam nas redondezas. Dei uma parada na frente do Antigo Matadouro Municipal para ajuste dos suprimentos e equipamentos que levava. 

Quase chegando ao Rio Caiuazinho, ainda dentro da mata, outra visão surpreendente. Num arbusto do varjão, alguém “esqueceu” dependurada uma calcinha vermelha. Rsss... Numa espécie de paradoxo, mais adiante, parei numa humilde capela branca, bem cuidada. Assim que me aproximei da ponte sobre a linha do trem, mais uma surpresa: o que era uma pequena garoa de final de tarde se transformou numa chuva mansa. Fiquei com a roupa encharcada! Um desafio diferente das caminhadas anteriores, mas que me trouxe ainda mais firmeza para prosseguir.  

Continuei pela vicinal, pisando em muito barro.  Mais alguns metros, no topo de um poste, uma ave esplendorosa.  Enorme!  Estava distante e aproveitei para acionar a câmera filmadora do tablet.  Aproximei-me com cautela, até que levantou vôo abrindo suas magníficas asas.  Aí veio a identificação: era um urubu. Rsss... Voltei novamente a caminhar pela Linha Férrea até que a mesma sumisse no meio de uma floresta que tomou conta de tudo. Avancei com dificuldade, encontrando em dois pontos, surpreendentemente, cercas de arame que delimitavam propriedades cruzando a linha férrea. Dois quilômetros adiante fui seguido de perto por um “lobinho”, animal silvestre, de focinho bem fino e pelos amarelados, com diminutas manchas negras. Quando preparava a câmera do tablet, ele fugiu em disparada. À frente, entretanto, flagrei pequenos preás brincando às margens da estrada. E pássaros por todo lado! 

Antes de chegar ao Kaiowinha encontrei algo ainda mais espantoso. O aterro da ferrovia, um espaço de aproximadamente 30 ou 40 metros, foi  levado. Não há nem sinal da “tubulação de água” que deve ter sido arrastada para dentro da nascente do Caiuazinho. Os trilhos, com vários dormentes de madeira ficaram presos, suspensos de forma esquisita (repare na foto!), criando a visão mais fascinante da jornada! Um pequeno precipício surgiu com razoável profundidade, forçando-me a voltar cerca de 200 metros pela mata e entrar novamente na estrada vicinal. O que esse percalço significa: por trem, pela ferrovia, é impossível  chegar a Caiuá ou Presidente Epitácio que estão isolados agora. Um morador da área, de nome Douglas Faustino, disse que “uma chuva forte no ano passado, causou a interrupção da Linha Férrea”. 

O tempo firmou. No céu, a maior surpresa: a lua cheia. Como diria o grande poeta Raymundo Farias, a “majestosa hóstia da noite” me acompanhou até Presidente Venceslau, aonde cheguei às 23,34 h, escoltado por travessos pirilampos fluorescentes, na Av. Carlos Platzeck. Inesquecível...