Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Uma década sem Brasimac

Nem parece que já faz todo esse tempo. Contudo, há pouco mais de dez anos uma das filiais da gigante rede de lojas Brasimac fechou as portas em Presidente Venceslau, deixando saudades. Estava aqui desde 1958, atendendo aos cidadãos na Av. Princesa Isabel. A decadência do grupo começou de maneira imperceptível e, aos poucos, foi se acentuando. Eu não acredito que a corporação tenha caído porque vendia pouco. Pelo contrário, em nosso município, sempre foi uma tradicional campeã de vendas. Um possível erro de cálculo nas compras de outras empresas do ramo em várias partes do país e que estariam deficitárias, ajudou na derrocada. Sem contar a instabilidade econômica da época, com vários planos econômicos até a fixação da moeda, o Real.

Entrei na filial local da empresa em meados de junho de 1988, contratado com a remuneração de “2% sobre as vendas normais e 3% sobre Utilidades Domésticas”. No início das funções cheguei a receber o equivalente a dez salários mínimos mensais. Havia períodos de grande abundância, de muitas negociações, alternados com alguns tempos de crise. Daquela empresa, entretanto, ninguém pedia demissão. Ninguém almejava prestar concursos públicos pretendendo melhoria salarial. Isso somente veio acontecer depois, quando a pretexto de aumentar os lucros, a empresa resolveu baixar os percentuais de comissão, chegando ao patamar de alguns produtos serem comercializados a apenas 0,4% (!) ou menos. Os salários dos vendedores encolheram de maneira absurda. Muitos resolveram sair e, alguns, tentaram ser comerciantes  autônomos. Diversos deles estão por aí com suas prósperas empresas. Na verdade, a minha grande gratidão com essa empresa é pelos ensinamentos que ela proporcionou, tanto no campo profissional como pessoal.

Naquele período, ainda tive a oportunidade de vender muitos produtos para os funcionários do Frigorífico Kaiowa, que eram os maiores clientes no comércio de Presidente Venceslau na época. Costumeiramente, estes compradores vorazes gastavam grande parte dos seus salários no chamado “vale” que era pago sempre no dia 20 pelo Kaiowa. Os comerciantes faziam uma festa! Era um movimento alegre ver a cidade toda fazendo compras na Brasimac. 

Como já escrevi aqui em certa ocasião, cheguei a atender e vender para 35 pessoas num único dia na Brasimac. Será que uma loja inteira do ramo ainda vende para tanta gente assim em apenas um dia na cidade?  Por vezes, vendiam-se os móveis da casa toda para algum casal que estava iniciando os preparativos para o matrimônio. Condições especiais abriram grandes possibilidades de bons negócios, principalmente a prazo. Na verdade, cada venda era um ritual e um sonho realizado do cliente. As pessoas, por vezes, esperavam anos e anos para adquirir algo. Hoje, parece algo mais fácil, embora, como dizem os antigos, “para pagar tudo é que são elas.” Comprar é fácil! Todo mundo compra...

Quando fábricas e lojas tradicionais fecham, deixam um vazio na cidade. Quando órgãos públicos estaduais ou federais vão embora, a dor é implacável. Mas, não quero terminar com tristeza essa crônica. Momentos engraçados e diferentes foram marcantes na minha vida dentro da Brasimac. Certos produtos eram vendidos sem muito esforço. Vendi, num único dia, dez rádios gravadores da marca Sanyo; incontáveis rádios-relógios da marca National (Hoje Panasonic!) que vendiam “como se fosse água”. Recordo-me de que, certa feita, fui vender um tapete para um jovem casal de noivos. Isso trouxe certo constrangimento. A moça estava com uma bermuda bem curtinha. Quase o mínimo. Acho que era moda na época! Os tapetes estavam encostados numa parede, enrolados e assim que abri e espalhei alguns pelo chão, de repente, a noiva agachou-se. Ela começou a andar de quatro apalpando cada um deles, criando uma visão desconcertante para os demais clientes. Rsss...