Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Podemos ofender a um amigo?

Vivemos um tempo de muita liberalidade, contudo, de poucos sentimentos. E sempre somos testados em nossas relações, principalmente onde estudamos ou trabalhamos. No campo fraternal, o despreparo tem feito amizades acabarem porque perdemos o limite das nossas palavras. Até onde e o que podemos dizer a um amigo sem que isso não o destrate? As pessoas estão ousadas em seus pronunciamentos – longe do Criador! -, fazendo colocações cada vez mais impróprias em nome de uma dita “amizade sincera”. Já quem recebe uma ofensa dificilmente consegue esquecer. A pessoa insultada pode até não reagir, porém guarda no coração grande mágoa. A verdade é uma só: um amigo tranqüilo, paciente, simples, que você pode até achar que é bem legal, não lhe dá o direito de falar o que quiser. Brincadeiras de mau gosto, humilhações ou comentários que fazem pouco-caso da família, de bens materiais ou pessoais dos outros, nem pensar!    

Não falo aqui de bullyng! A análise hoje se refere ao abuso de pensar que o outro suporte algo que deduzimos não ser uma afronta. E como a gente se engana com essas coisas! Em nome de uma amizade, discordamos, aconselhamos e até debochamos de uma pessoa bem próxima, sem refletir concretamente se isso vai aborrecê-la. E geralmente, aquele que emite a descortesia nem lembra que o tenha feito. Embora não pareça, é grave isso. Em alguns casos, gravíssimo!

A ofensa pode ocorrer também de maneira involuntária, em forma de gafe. Não sei se eram amigos, amigos... Mas, um homem e uma mulher se encontraram numa agência bancária outro dia. Ao constatar certa obesidade, o sujeito disse assim: “É menino ou menina?” O erro de cálculo gerou constrangimento já que não havia ali nenhuma grávida. Rss... Fato similar ocorreu há poucos dias. O presidente uruguaio, José Mujica, numa cerimônia com a presença da mandatária da Argentina, Cristina Kirchner, esqueceu que o microfone no qual falara para uma platéia ainda estava ligado e deu uma mancada. Numa referência ao ex-presidente Néstor Kirchner, marido de Cristina, que morreu há três anos, ele disse: “Essa velha é pior que o vesgo!”. Rss...  

A maldade é algo inerente ao homem, porém devemos zelar para que isso não atinja aqueles que nutrem um afeto especial pela gente. O escritor latino de Roma, Públio Siro, há mais de dois mil anos, já dizia: “A um amigo não deves ofender nem a brincar.” Falo isso completamente horrorizado pelo teor das conversas e o volume de despropósitos, grosserias, gozações daqueles que se dizem “nossos amigos”. Há coisas que não devemos falar nem mesmo ao pior dos piores, dos mais terríveis inimigos. Mesmo a amizade sincera não dá direito à ofensa gratuita. 

Do fabulista grego Esopo vem uma narrativa que bem define quem verdadeiramente é nosso amigo ou não. Guarde isso: há milhares de anos, em um dia de outono, dois amigos viajavam a pé por um caminho que atravessava um belo bosque. De repente surgiu diante deles um urso faminto, ameaçador, pronto para atacar. Sem pensar por um só instante, um dos viajantes subiu rapidamente a um dos galhos mais elevados de uma árvore próxima. O outro, sozinho, diante da fera e ameaçado pelo sentimento de pânico, lembrou de algo decisivo. Tempos atrás, tinha ouvido que um urso não se alimenta de cadáveres. Atirou-se então imediatamente ao solo e fingiu-se de morto. O urso chegou até ele e colou o focinho ao corpo aparentemente sem vida. Durante alguns segundos, cheirou o rosto e as orelhas, enquanto o homem continha a respiração.  Sacudindo a cabeça, aparentemente decepcionado, o urso desistiu e afastou-se. O perigo havia passado. O homem ergueu-se lentamente do chão, sentindo uma perfeita calma.  Seu colega desceu da árvore, aproximou-se com ar curioso e perguntou: “Quando você estava deitado, o que foi que o urso disse ao seu ouvido?” “Na verdade, ele me deu um conselho”, foi a resposta. “Na linguagem dos ursos, ele me disse com jeito amável: ‘jamais deves viajar em companhia de amigos como esse aí da árvore, que te abandonam a toda velocidade quando estás em perigo’.”