Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Um pingo de consideração

Um casal muito apaixonado resolve noivar. A moça, muito bonita, era cega. O rapaz enxergava, porém não tinha formosura. Quando ele pediu a moça em casamento disse que “ela poderia fazer-lhe qualquer pedido que ele realizaria.” A moça disse-lhe que “o que ela queria, ele não tinha como conseguir.” Mesmo assim, pediu para voltar a enxergar, para poder contemplar a face do seu amado. O rapaz, receoso, perguntou se ela continuaria a amá-lo mesmo “se descobrisse que ele era feio!” E ela respondeu-lhe que “o amava de todo o coração e isso nunca, nunca iria mudar.” Então o jovem foi ao médico e pediu que fossem transplantadas as suas córneas para sua amada. Após o transplante o jovem noivo foi visitar sua amada, porém quando adentrou a sala de posse de uma bengala, a garota perguntou “quem ele era.” E com a voz trêmula, ele respondeu que “ele era o seu amado!”. A garota retrucou dizendo-lhe que “não poderia ser ele, pois o homem a quem ela amava era belo e não era cego” e pediu-lhe que se retirasse. O jovem, chorando, disse-lhe que “imaginou que isso iria acontecer, mas ele acreditou em seu amor”. O rapaz arrematou: “já que você não quer continuar comigo pelo menos cuide bem dos olhos, pois eles já me foram muito úteis.” Dando as costas a ela, o rapaz saiu cabisbaixo...

Essa pequena parábola, ouvida num sermão religioso, nos deixa cara a cara com o nosso interior. Nunca existiu um tempo como esse, de tanta falta de consideração. De tanta ingratidão! Quase todos nós queremos apenas “um pingo” de reconhecimento, de lembrança do nosso ser. Nestes termos consideração significa “existência”. Será que fazemos diferença na vida de alguém?

E nas ruas?! As pessoas passaram a dar mais atenção aos telefones celulares do que aqueles que lhes passam pela frente. Os cumprimentos se escassearam! Ouve-se hoje, esporadicamente, um “oi” chocho aqui e ali, sem muito ânimo. Assistindo ao filme “Guerra de Canudos”, fiquei surpreso. Os fatos retratados se sucederam entre os anos de 1896 e 1897, mas dá para ver como a consideração entre as pessoas diminuiu. E muito! Antonio Conselheiro (José Wilker) cumprimentava as pessoas com profundo respeito. Dizia assim: “Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo!”. As pessoas a quem ele se dirigia respondiam: “Para sempre seja louvado tão bom Senhor!”. Aqui, em Presidente Venceslau, ainda pude testemunhar esse tipo de saudação entre meus concidadãos até o final da década de “60”. Depois, nunca mais.

Consideração valiosa pode ser uma visita inusitada, “na saúde ou doença”. Consideração pode ser compartilhar a dor com a presença nas despedidas de um amigo que falece. Consideração pode ser uma pequena homenagem através de uma lembrancinha qualquer, destas que se compra à beira da praia. Consideração pode ser uma revelação inesperada, repentina, de profundo afeto. Isso aconteceu comigo de uma maneira admiravelmente especial. Maravilhosa!    

Escrevo em jornais semanalmente há mais de 16 anos e a maior homenagem que recebi ocorreu por estes dias. Simplesmente aconteceu! Não veio de gente de destaque e, sim, de pessoa comum! Não veio de profissionais da área e muito menos da família! Não teve data marcada, nem formalidades. Ninguém cantou o Hino Nacional. Não teve roupas elegantes, nem celebridades ou autoridades. Nem mestre de cerimônia! Não houve entrega de medalhas e nem honras. Não houve bonificação em dinheiro, brindes ou diplomas. Nem fotografias, nem flashes. Nem música! Não teve aperto de mão e nem demagógicos tapinhas nas costas. Não foi transmitida por nenhuma emissora de rádio ou TV. Não foi gravada, mas, sim, eternizada nesta mensagem escrita...

Encontrava-me no final de uma rampa de um supermercado em Venceslau, que dava acesso ao estacionamento. Ela, aquela humilde senhora, anônima, desceu lentamente, caminhando com dificuldades, segurando no corrimão e apoiada numa bengala. Aproximou-se. Sorriu! Três frases foram pronunciadas, quase inaudíveis. Guardei todas! Bebi ali o meu “cálice” de consideração.  

Prezada leitora: muito obrigado porque você existe! Porque vocês, leitores, existem...